Portuguese poem
Se vós fôreis tão ousado
by Gregório de Matos (1636–1696)
Se vós fôreis tão ousado nos militares assaltos, como sois destro nos saltos, fôreis um grande soldado: mas eu tenho averiguado, quão distinto vem a ser saltar para escafeder, de assaltar para triunfar, vós saltais por escapar, não assaltais por vencer.
Lançastes-vos brutamente, e ao cairdes na razão, como caístes no chão, fôreis discreto, e prudente: ficou espantada a gente, vendo, que apenas caístes, quando às carreiras fugistes, e é, que os que se confundiram, por entonces não caíram, no aperto, em que vos vistes.
Cair sem susto, ou pavor, levantar, correr, fugir, é ser corrente em cair, como qualquer pecador: porém fora-vos melhor não cair na falta, em que caístes, faltando à fé, e verdade tão devida, a quem por essa caída subir vos pode à polé.
Dizem, que estais retraído curando-vos de quebrado com que hoje sois mal soldado porque ontem fostes rompido: tenho por melhor partido, que em casa do Provedor assente praça um Tambor, que vós, quando escafedeis, a de soldado assenteis na calçada do Ouvidor.
Bom será, que vos cureis nesse convento Sagrado, donde saindo soldado, força é, que o posto deixeis: quando o venablo encosteis, que eu vo-lo aprovo, e concedo, vos advirto em tal enredo, se sois homem de bom gosto, que vos reformeis de posto não tanto, como de medo.
O Alcaide acelerado vos teve quase colhido, mas ficou muito corrido, e vós pouco envergonhado: Se vos não causa cuidado estar entre ardentes brasas calafetando linhaças para tanto osso quebrado é, que a um raso soldado lhe bastam cadeiras rasas.