Portuguese poem
A Donzella E O Musgo
by João de Deus
Um dia, não sei que eu tinha... Uma tristeza tamanha! E lembra-me ir á montanha, Que temos aqui vizinha, Onde em tempo me entretinha Horas e horas sósinha Quando ainda se não estranha Que n'uma teia de aranha Se prenda uma innocentinha, Ou atraz d'uma avesinha Se cance a vêr se a apanha.
Depois é que o mundo falla E se mette com a vida De quem ás vezes se cala Por ser mais bem procedida. Que esta gente que faz gala Em coisa, que vê, contal-a, E sendo mal permittida Inda em cima acrescental-a, Teem a lingua comprida E bem deviam cortal-a.
Vou pelo córrego acima, Subo á ponta do penedo; Que a vida só quem a estima É que da morte tem medo. A mesma tristeza anima A encarar a pé quedo A morte que se aproxima A tirar-nos do degredo, Que inda a gente se lastima De não acabar mais cedo.
E alli sósinha chorando Me lembrava, ora a ventura Da minha infancia, inda quando Levava os dias brincando; Ora a desgraça futura, Que me estava annunciando Não sei se a minha amargura, Se uma nuvem, grande e escura, Que se ia no ar formando E vinha já avançando, Como que á minha procura.
E ainda o pranto corria E o cabello me batia No rosto, que me doía, Tal era a força do vento; Já tudo tão pardacento A nevoa e chuva fazia Que eu olhava, mas dizia: É nuvem ou penedia Aquelle vulto cinzento? O mar brilhante algum dia Como prata luzidia Já ninguem o distinguia Da terra e do firmamento: Uivar só é que se ouvia, Mas uivar sem sentimento; E como em grande tormento Se desvaira a phantasia: --Fosse eu mar, disse; valia Mais ser coisa bruta e fria, Como a rocha onde me sento.
Faz um trovão no momento Que soltava esta heresia; E áquella rouca harmonia Occorre-me um pensamento, Que me dá uma pancada O coração de tal modo, Como se o rochedo todo Desandasse na chapada.
Era a voz da consciencia Que me accusava do crime De negar á Providencia A razão com que me opprime. Peço perdão, commovi-me E n'um extasi sublime Lagrimas de penitencia, Como um balsamo, uma essencia, Purificam-me e senti-me Com uma nova existencia.
Ólho; as nuvens esvaíam-se: Os roncos do mar ouviam-se, Mas já mais de espaço a espaço. O sol ainda tão baço, De luz tão pouco brilhante, Que se media a compasso Como a cara d'um gigante, Descobre-se e resplandece! Ao longe o mar apparece; E tudo, mar, terra e céos Tão formoso me parece, Como se agora tivesse Sahido das mãos de Deus!
No rochedo onde descança Meu corpo desfallecido, O verde musgo, vestido Sempre da côr da esperança, Agora reverdecido, Me ensina a ter confiança N'esse que do céo nos lança Em dia tempestuoso, Só para nosso repouso O arco da alliança.
Pobre musgo, descuidado, Sem olhos para chorar, Sem poder alliviar Com seu pranto um desgraçado, Consolar-se e consolar! Fallas mais a meu agrado Que o livro mais afamado D'esses livros, que em lugar De nos dar consolação, Nos fazem cahir no chão Um pranto mal empregado, E inda mais amargurado Nos deixam o coração.
Colhi-o, pul-o no seio, E é hoje o livro que leio.
Messines.
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