Versos Portuguese João de Deus A A. Do Quental

Portuguese poem

A A. Do Quental

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Em fumo se vai tudo, amigo! Olhando Para as nuvens do céo, nuvens d'aquellas, E parece-me ainda que mais bellas, Anda a gente fazendo e desmanchando.

Dá-me uma saudade em me lembrando O bello tempo que passei com ellas, Por essa immensa abobada de estrellas, Por esse mar de fogo viajando...

Andasse ainda eu lá, que não me havia De vêr por estes charcos atolado, Onde nem sol nem lua me alumia.

Andasse ainda eu lá, desenganado Mesmo já como estou de achar um dia A patria d'aonde ando desterrado.

* * * * *

Pois se o homem, se anjo e nume, Planta e flôr, Dá seu canto, luz, perfume, Crença e amor;

Pois se tudo sobre a terra Que ame alguem, Rosa ou espinho, quanto encerra Dá, se o tem;

Se os carvalhos, nus, medonhos, Veste abril; Se inda a noite presta aos sonhos Graças mil;

Se onde ha ramo, voz uma ave Desprendeu; Se onde ha folha, gotta suave Cahe do céo;

Se na praia, quando a onda Vem de lá, Beijos, antes que se esconda, Mil lhe dá;

Tambem, anjo meu saudoso! Te hei de emfim Ah! dar quanto de precioso Sinto em mim!

Dou-te o nectar, que me acalma; Toma-o tu! Sim, meu pranto; mais uma alma Que eu possuo!

Dou-te os sonhos meus ardentes, Mas leaes; Dou-te as notas mais cadentes Dos meus ais!

Do que ha lindo, tudo quanto Me seduz; D'esta vida, riso e pranto, Noite e luz!

Dou-te o genio meu, que á sorte Vês fluctuar Sem mais véla, sem mais norte Que esse olhar!

Dou-te a lyra, que me inspiras, Sonho meu! Que suspira, se suspira, Flôr do céo!

Dou-te; aceita: tudo é santo, Tudo, flôr! Dou-te uma alma toda encanto, Toda amor!

V. HUGO.

Coimbra.

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