Portuguese poem
... 21 De Setembro
by João de Deus
Ha uma hora ou mais, Marina! que contemplo A casa de teus paes Que é para mim um templo.
Está a porta aberta, E vejo alumiada A parte descoberta Da casa da entrada.
Lá andam a passar Do quarto onde acabaste Á casa de jantar Os vultos, que deixaste.
Os vultos, que os vestidos Tão negros que pozeram, De luto, tão compridos, Não sei que ar lhes deram!
A tua bella irmã, A tua piedade, A rosa da manhã, A flôr da mocidade,
Quem lhe diria a ella, Tão cheia de alegria, Que haviamos de vêl-a Assim já hoje em dia!
É esta vida um mar, E bem se póde a gente, Marina! comparar A rapida corrente,
Que vai de lado a lado Por esses valles fóra Sem nunca lhe ser dado Ter a menor demora.
Pára, quando a engole Aquelle mar sem fundo; Nem pára; é como o sol E como todo o mundo...
Ahi não pára nada, Tudo viaja e anda, Que a ordem lhe foi dada, E dada por quem manda.
Chega a corrente lá, Engole-a logo a onda: Depois, que é d'ella já? A nuvem que responda.
Que a nuvem que nos passa Pela manhã nos ares, Era hontem a fumaça Que andava n'esses mares;
E a nevoa, que tu vês Nas ondas fluctuantes, Corria-nos aos pés Talvez um dia antes.
A agua é que no giro Em que anda eternamente Não deu nunca um suspiro Em prova de que sente.
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