Versos Portuguese João de Deus A D. Candida Nazareth

Portuguese poem

A D. Candida Nazareth

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Por occasião da morte de sua irmã Rachel e, poucos dias depois, de sua mãi

Despe o luto da tua soledade E vem junto de mim, lirio esquecido Do orvalho do céo! Tens nos meus olhos pranto de piedade, E se és, mulher! irmã dos que hão soffrido, Mulher! sou irmão teu.

Consolos não te dou, que não existe Quem de lagrimas suas nunca enxuto Possa as d'outro enxugar: Não póde allivios dar quem vive triste, Mas é-me dôce a mim chorar se escuto Alguem tambem chorar.

Botão de rosa murcho á luz da aurora! Que peccado equilibra o teu martyrio Na balança de Deus? Se é como justo e bom que elle se adora Quem te ha mudado a ti, ó rosa! em lirio, E em lirio os labios teus?

Não enche elle de balsamos o calix Da flôr a mais humilde, e esses espaços Não enche elle de luz? Não veio o Filho seu, lirio dos valles! Só por amor de nós tomar nos braços Os braços d'uma cruz?

Mulher, mulher! quando eu n'um cemiterio Levanto o pó dos tumulos sósinho: Eis, digo, eis o que eu sou. Mas quando penso bem n'esse mysterio Da virtude infeliz: vai teu caminho; Dois mundos Deus creou.

Deus não dispara a setta envenenada Á pombinha que aos ares despedira Com mão traidora e vil.

Imagem sua, Deus não volve ao nada, Não aniquila a flôr que ao chão cahira Lá d'esse eterno abril.

Has-de, cysne! expirando alçar teu canto, Has-de lá quando a lua da montanha Te acene o extremo adeus, Voar, Candida! ao céo, e ebria de encanto, No oceano d'amor que as almas banha, Unir teu canto aos seus.

Seus, d'ellas, mãi e irmã, cinzas cobertas D'um só jacto de terra... oh desventura! Oh destino cruel! Vejo-as ainda ir com as mãos incertas Guiando-se uma á outra á sepultura, E a mãi: Rachel! Rachel!

Coimbra.

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