Portuguese poem
A Hermann
by João de Deus
Por occasião d'um beneficio a um asylo
«Conchega a mãi ao peito o filho caro; Estende a pomba as azas no seu ninho Pelos filhinhos seus. Embala o arbusto agreste; o fructo amaro. Guia a bussola o nauta em seu caminho, Como um dedo de Deus.
«Bebe a nuvem no mar, no rio a fera; Acha o tigre covil na antiga Hyrcania, Hoje em dia, Ghilã; Renasce a planta á luz da primavera, E no calix da flôr gotta espontanea Cahe á luz da manhã.
«Só eu no mundo um gosto em vão pretendo: Guebro entre os persas, entre os indios pária, Judeu entre christãos, Só eu debalde ao céo as mãos estendo, Como o naufrago á praia solitaria Debalde estende as mãos.
«Tenho no livro azul onde Elle escreve Esse nome, que nunca pronuncia Quem bem o soletrou, Mil vezes tenho lido que não deve Queixar-se mais que a flôr que vive um dia Um verme como eu sou.
«Porém, chorando, as mágoas diminuem. Custa muito soffrer sem que um gemido Ah! solte a nossa dôr. E se aos olhos as lagrimas affluem, É que este allivio nosso é permittido. O céo orvalha a flor.»
Diz isto o orphão. De alma os ais lhe sahem, Como os suspiros de harpa eolea em ermo. Ninguem no mundo o ouviu. Mas, se a teus pés as lagrimas lhe cahem, Tocou a mão de Christo a mão do enfermo; O Lazaro surgiu.
Por isso, Hermann! espantas-me. Não scismo Nos prodigios da milagrosa vara Que o Senhor Deus te deu. Teu coração, Moysés do christianismo! Tua alma é que eu admiro, e te invejára Se o que é teu... fosse teu.
Coimbra.
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