Portuguese poem
A Uma Mulher
by João de Deus
Amo-te a ti, e a Deus. Teus sonhos são riquezas Talvez e fasto. Os meus, És tu, que me desprezas.
Deixal-o. Amor acaso É racional? Não é. O fogo em que me abrazo É como a luz da fé;
Que além de cega, apaga O facho da razão. Ama-se e não se indaga Se se é amado ou não.
Amo-te. O mais ignoro. Mas os meus ternos ais E as lagrimas que chóro Podem dizer o mais.
Que chóro; se te admira. Nunca tiveste amor. Quem tem amor, suspira, E o suspirar é dôr.
Ah! quando abraço e beijo O travesseiro e, assim, Acórdo e te não vejo, Vejo-me só a mim;
Não sei, mulher! que anceio Se me traduz n'um ai! Confrange-se-me o seio, Rebenta o pranto e cái.
Então, se por encanto Fallando em ti, mas só, Todo banhado em pranto Me visses, tinhas dó.
Tinhas. A piedade É filha da mulher, Que sempre quiz metade D'uma afflicção qualquer.
Havias ao teu rosto De me apertar a mim, D'encher, fartar de gosto, Todo este abysmo; sim.
Vós desprezaes embora Culto e adoração De quem vos ama; agora As dôres, essas não.
Messines.
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