Portuguese poem
Á Vista D'Um Retrato
by João de Deus
Amo-te, flôr! Se te amo, Deus que o sabe Que o diga a teus irmãos, que o céo povoam, E ebrios de gloria canticos entoam A quem no mar, na terra e céos não cabe.
Se te amo, flôr! que o diga o mar--que expelle Quanto é dominio, beija humilde a praia: Se mal que a lua lá das ondas sáia Nas rochas me não vê gemer com elle.
Amo-te, flôr! se te amo, o sol que o diga! Quanto lá da montanha aos céos se eleva, Se entre os vermes do pó que o vento leva, Me banha a mim tambem na luz amiga.
Se te amo, flôr? Sem ti, que noite escura, Meu céo, meu campo em flôr, meu dia e tudo! Diga-te a noite minha se te illudo, Se em vida já sem ti, sonhei ventura!
O anjo que a berço humilde e escasso Do céo me veio alumiar piedoso, E em lagrimas e riso, pranto e gozo, Desde então me acompanha passo a passo;
És tu! Amo-te e muito! O que fluctua Na fornalha que o sopro eterno accende, Não beija a mão do anjo que o suspende Com mais amor que eu beijo a sombra tua!
Coimbra.
* * * * *