Portuguese poem
Francisca De Rimini
by João de Deus
Disse eu então: poeta, vês aquelles, Abraçados, velozes como o vento? Desejava poder fallar com elles.
--Chamando-os com enternecimento, Em cá passando mais do nosso lado, São dois amantes, lograrás o intento.
Assim que o vento os aproxima, brado: Oh almas d'uma eterna anciedade, Vinde fallar-me, se vos isso é dado.
Como um casal de pombas, com saudade Do ninho, vem no ar, d'aza espalmada, Não mais que por impulso da vontade;
Rompendo aquella aragem empéstada, Acodem lá do bando onde anda Dido Á supplica tocante e magoada.
«Ah mortal generoso e condoído, Que nos visita n'este escuro horrendo, Deixando nós de sangue o chão tingido!
«Do Senhor impetráramos podendo, Já que tens dó do nosso mal enorme, O teu descanço eterno em fallecendo.
«Queiras ouvir-nos ou fallar, conforme, É só dizer ou perguntar, mais nada; Em quanto o vento, como agora, dorme.
«A terra, onde nasci, fica assentada Na praia onde a final o Pó descança, E os que o seguem na marcha arrebatada.
«Amor, que em nenhum moço acha esquivança Prendeu este a um corpo... que roubado Foi á minha alma em barbara vingança!
«Amor, que obriga amar quem é amado, Poz-me com elle tão condescendente, Que ainda, como vês, me anda abraçado.
«Amor nos deu a morte juntamente. Quem nos matou irá para as Caínas.» Disseram elles isto fielmente.
Depois d'ouvir as victimas mofinas, Scismando cabisbaixo, em tal postura, Pergunta-me o poeta: em que imaginas?
Começo respondendo: oh desventura! Quanta esperança! quanta sympathia A ambos não cavou a sepultura!
E voltando-me a quem me referia: Olha Francisca! dó dos teus tormentos Estas lagrimas tristes desafia.
Mas na quadra dos vagos sentimentos, Conta-me: como foi que conheceste Os amorosos languidos momentos!
«O desgosto maior d'um triste é este, Fallar do tempo que passou, confesso: Que o diga o proprio guia que trouxeste
«Mas desejando tu com tanto excesso Conhecer de raiz esta amizade, Entre vozes e lagrimas começo:
«Liamos ambos, por curiosidade, Certa historia d'amores, que idearam, Nós sós, um dia, livres de maldade.
«Muita vez nossos olhos se espantaram, E descoramos, lendo a historia estranha; Mas dos lances que mais nos abalaram,
«Foi quando em summa o terno amante apanha O dôce beijo, por que andava ardendo: Este, que eternamente me acompanha,
«Beija-me a bocca a mim, todo tremendo! A culpa foi do livro que se lia! Não se continuou o dia lendo.»
Em quanto assim Francisca respondia, Chorava Paulo, a ponto, d'aterrado Me vêr nas convulsões da agonia, E cahir, como um corpo inanimado!
DANTE.
Lisboa.
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