Portuguese poem
Heresta
by João de Deus
Que magua ou que receio Dos olhos te desata Aljofares de prata No jaspe do teu seio?
Bem intima ser deve A pena que te opprime, Flôr tenra como o vime, Flôr pura como a neve!
--Compunge-te isso, dóe-te Vêr esmaltando o calix Da erma flôr dos valles O balsamo da noite?
Se aos olhos nos affluem As lagrimas, parece Que a dôr nos adormece, E as maguas diminuem.
--Heresta! pois inclina Na minha a tua face E deixa me repasse Teu balsamo, bonina!
Abraça-me, divide Commigo esse consolo, Enlaça-te ao meu collo Como ao olmeiro a vide!
Ás vezes tambem quando Os olhos se me estendem Ás luzes, que se accendem No templo venerando;
Tão intima saudade, Tão intimo desejo, D'um mundo, que não vejo, Me inspira a immensidade...
Que o pranto se agglomera Na palpebra, onde morre; Sim, gela-se, não corre, Tal é a dôr que o gera!
--É Deus que a si te aspira, É Deus que ao céo te chama; Que em tudo amor derrama, A tudo amor inspira!
Canta-o, o justo, o santo! E a flôr que o campo adorne Thuribulo se torne Mal te ouça o dôce canto.
--Inspira-o pois, inspira, Virgem de intacto pejo! Seja um teu riso o harpejo E um teu cabello a lyra!
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O sol já da montanha Te disse adeus! adeus! E a cupula dos céos Ficou pallida e estranha.
E aquella, que a bondade De Deus em si reflecte, Em quanto ao sol compete Mostrar-lhe a magestade,
Á luz extrema d'hoje Ergueu livida a face Com medo que avistasse Quem busca, e de quem foge.
Fluxo e refluxo eterno D'alma contradictoria, Que após continua gloria, Anda em continuo inferno.
Poeta! é copia tua, Supplicio igual te inquieta. Mas que alma de poeta Teu seio arqueia, oh lua?
Amor, amor como este, Visão timida e casta Em giro eterno arrasta A lampada celeste.
Como esse que a deshoras A ti te ergue a cabeça E aos ermos te arremessa Em busca do que adoras.
Mas, ah! pallido globo! É pio d'ave nocturna, Echo em alguma furna Do uivo d'algum lobo?
Ouço uma voz... escuta: É ella a voz que se ouve? Ou monge que inda louve A Deus, n'alguma gruta!
Quem lá em baixo á escarpa D'um ingreme penedo No tremulo arvoredo Entorna os ais d'uma harpa?
É ella a minha Heresta, A minha branca ermida Do ermo d'esta vida, Mais erma que a floresta?
Tu, lua, que no val D'Aialon paraste, Já viste em sua haste Suspenso lirio igual?
Não é, não é mais bella A rosa entre os abrolhos, Nem ha como os seus olhos No céo nenhuma estrella!
É á luz d'uma alvorada, Apenas desabrocha, Nos angulos da rocha Vêl-a despedaçada!
Vós, lobos! ide em bando, Trepai pelo rochedo, Uivai, mettei-lhe medo, Levai-a recuando!
Que faz quem se aproxima D'um precipicio, diz-m'o? Que buscas tu no abysmo Se o céo é lá em cima?
Não tarda muito, creio, Que acabe esta ancia nossa, E Deus unir-nos possa No seu eterno seio.
É lá que a alma falla, Lá que o amor se mede, Que em brilho o sol excede, E em gloria a Deus iguala!
Na nuvem do futuro Teus vagos olhos prega! Depois de noite negra Vem sempre um céo mais puro.
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E agora, se o desejo Te satisfiz, em premio D'um canto d'alma gemeo, Um gemeo e dôce beijo!
Coimbra.
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