Portuguese poem
Em que estás tu a pensar?
by José da Silva Maia Ferreira (1827–1881)
Anjo d’olhos negros, negros, Tão da côr da noite escura, Tu que sabes meus segredos, Tu que lès minh’amargura; Porque buscas nessas ondas Da furia o rebramar? Porque foges de mim sempre, Em que estás tu a pensar?
Porque queres brancas velas Sobre as aguas a soprar, Quando o oiro das strellas Brilha, brilha sobre o mar? Porque triste estás scismando, No d’outrora o meu scismar? Se o teu coração palpita, Em que estás tu a pensar?
Não reparas nesses ares Essa pomba a perpassar — Qual será o seu pressagio — Vem — oh! vem-m’o revelar. Se nos diz qu’é desventura Algum dia ha de findar, Porque queres qu’eu repita Em que estás tu a pensar?
Mas eu vejo a longe em trevas Sobrevir a tempestade Porque esperas? — Foge, foge, Teme a sua potestade — Mas tu ficas triste e muda — Dize, oh dize o teu pena r— Porque tranquilla só tremes? Por quem pódes recear? —
Nada disse — e ainda triste — Mais que nunca assim fico — Os seus olhos me disseram O que su’alma me jurou. Estreitando então seus braços Revelou-me o seu scismar — Era a certeza da morte — Que o fazia assim pensar!