Portuguese poem
Como és bella, creancinha
by José da Silva Maia Ferreira (1827–1881)
Como és bella, creancinha, No teu dormir innocente, És tão meiga, és tão lindinha Nesse arfar tão docemente! Semelhas á linda flôr No albôr, Com primôr, Entre-abrindo brandamente:
És tão bella, Qual estrella A brilhar no céo — fulgente!
És qual limpida corrente, Mimosa e bella e pura, Que rebenta docemente D’um rochedo em grande altura. És o orvalho matutino Gottejando, Rorejando, Sobre viçosa verdura: És a aragem Na folhagem Bafejando-a com doçura.
És farol, és doce guia, No teu dormir innocente, De quem á meiga poesia Se ha voltado e não desmente A verdade e melodia Que na lyra Só respira, Só respira magamente. Que Poeta, Qual Profeta, Canta d’alma, e nunca mente.
És singella, alva pombinha Repousando em tronco annoso,
Quando a sós, e coitadinha No seu ninho tão mimoso Outra pomba a acarinha Com candura, Com duçura, Em seu somno d’almo goso: És como ella, Meiga e bella Neste encanto primoroso.
És o suspiro da vaga No seu longinquo morrer, Que lentamente divaga Na encosta que vae bater. És a saudade da vida Tão querida, Já volvida, Já volvida em meu viver. És espr’ança De bonança De quem da vida descrer.
Tu és tudo, e mais ainda De teus Pais és dôce encanto, Qu’imprimiram em face linda Innocencia em brilho tanto. Que em mago e doce enleio, D’amor cheio, Casto seio Recebe o meigo pranto,
Quando choras E descóras, Envolta em ceruleo manto.
Cresce, cresce, flôr mimosa, Nesse teu desabrochar; Nunca a vida desditosa Em ti possa penetrar, Nunca os rigores da sorte Desesp’rada, Malfadada Possa bárbara mirrar Essa flôr De primôr Qu’expontanea se pousou Na minha lyra d'amôr, Qu’este canto m’inspirou!