Versos Portuguese José da Silva Maia Ferreira Amo o silencio da noite

Portuguese poem

Amo o silencio da noite

by (1827–1881)

Listen in the reader

Amo o silencio da noite, O azul escuro do céo, As densas nuvens errantes, E seu pranto que verteu: Então a terra se calla E o mar bravio cedeu E o negro mocho agoureiro O seu canto emmudeceu.

Amo o silencio da noite, Quando suave instrumento, Nest’hora faz olvidar Agro — passado tormento; Quando leve sussurrando Fresca aragem, brando vento, Apressurado nos traz Algum novo pensamento.

Amo o silencio da noite, Quando em lua prateada, Modulando amenos versos Os dirijo á minha amada: E quando todos dormindo, Só eu vejo dispertada A minha sorte cruel Minha sorte malfadada.

Amo o silencio da noite, Lembrando antiga paixão, Sonhando os sonhos de amor Que gosou meu coração: Oh! então sinto e lamento Só ficar recordação Dessa agora já volvida Meiga, terna sensação.

Amo o silencio da noite, Quando contemplo a dormir, O somno de um innocente, Que dorme sem o sentir: Que só idéas fagueiras Em sonhos lhe podem vir E que dos males da vida Não sentio o seu pungir.

Amo o silencio da noite, Quando donzella formosa,

Meiga, triste e pensativa, Na voz languida e mimosa, Solta gemidos aos céos Aguardando mui saudosa Por seu bem, que em longes terras, Vive vida tão penosa.

Amo o silencio da noite, Quando de Deus Creador, Contemplo o immenso poder, Seu grande e infinito amor: Então ufano quizera Ser sublime trovador, Que dedicára a meu Deus Doces cantos de primor.

E já que a lyra não vibro Com sonóra melodia, Cantarei como cantou Poeta d’alta magia: «Como é bello este silencio «Da terra todo harmonia, «Que aos céos a mente arrebata, «Cheia de meiga poesia:»