Portuguese poem
A minha viagem
by José da Silva Maia Ferreira (1827–1881)
Só tu, e o vasto mar... e a saudade!... Garmet
Fadou-me a sorte Poeta, Tenho abysmos em minh’alma, Coração tenho propheta, Que me induz á justa palma. Já que a esperança na terra Só mentiras faz soprar, Quero escutar a verdade No forte bramir do mar!
Na só do mundo a vida De perfidias não travada, Busco segura guarida Ao infeliz consagrada: — É intima, pura, e unica, Que mais falla ao coração — É o eculeo da existencia, — É a amena solidão! —
Da terra fallaz, vaidosa Já não quero os seus segredos, Outra vida mais ditosa Procuro nos mares quedos. — Dos Ceus emmanados puros — Magos sons quero escutar, É linguagem que não mente, É o rugido do mar! —
Sibilla, contente, ó brisa, Fresca brisa do meu norte, Nesse chão que o barco pisa Eu não temo a fèa morte. Incha-lhe os pannos das vélas, Ainda o seu navegar, Oh! affasta-me da terra Em que vivi a penar!
Corre, corre, e sem receio Meu fraco, débil madeiro Não temas do mar o seio Que é o elemento primeiro. Que t’importa a tempestade, A rajada e o furacão, Se na terra ha mais tormentas, Mais perfidias e traição?! —
Temes acaso a procella Na immensidão destes mares? Vê como aquella estrella Tem fulgôres singulares! Como é branda e tão serena Na sua luz a brilhar, Como induz n’alma do crente A seu Deos idolatrar!
Nestes mares o horisonte É mais puro e matisado, Que não sei como eu o conte A quem não fôr desgraçado! Não tem grimpas d’altas torres Que vão-lhe o brilho roubar, Tem vagas de um mar humilde Que de perto o vae saudar!
Quem nunca deixou a terra Para andar sobre estes mares, Quem do coração faz guerra Á solidão nos azares, Não póde achar encantos Nestes céus, e neste mar, Não tem vida dentro d’alma, Não tem alma para amar?
Quem as fadigas da vida Não nas vem despir sósinho Sobre as lôbregas torrentes, No seu dôce murmurinho; — Não mitiga sobre as aguas Do seu pranto o acre ardôr, Não póde esquecer perfidias Nascidas do desamor!
Quem sobre as ceruleas ondas Não mira d’olhar bem fito, Não póde vêr como eu vèjo A Imagem do Infinito! Não gosa da formusura D’aurora no despontar, Quando vem com meigo orvalho Estes mares rociar!
No assomo da madrugada, Ou no findar do seu dia, Não póde em lyra doirada Cantar a melancolia; Porque nos aquosos plainos Tem o sol outro fulgòr, Inda mais bello e brilhante De mais gallas e primôr!
E p’ra o coração singello D’atro crime nunca heivado, Tambem tem o mar prazeres, Tambem é idolatrado; — Porque d’alma vae scismando, E sempre, sempre a pensar Nos amigos que ficaram Nessas terras d’álem-mar!
Mas eis que ao longe diviso Entre as vagas susurrando, Lá na extrema do horisonte, Sobre o mar sereno e brando — Os alcantis impinados Da minha terra natal, Qu’inda pobre, tem primores E p’ra mim sem outra igual!
Corre, corre e sem receio Meu fraco debil madeiro, Não temas do mar o seio Que é o elemento primeiro — Não temas — qu’eis alli terra Onde nasci — a brilhar — Em suas aguas d’esmeraldas Lança o ferro — a repousar!