Portuguese poem
A minha flor!
by José da Silva Maia Ferreira (1827–1881)
Trago no peito uma flôr Nesta amena soledade — É a flôr que nasce d’alma É a candida saudade.
Tirei-a de sobre um tumllo Onde tão bella brilhava — E de côr tão rôxa — rôxa Que o meu peito roxeava.
Tinha o mago sentimento Qu’em minha alma exp’rimentava — Ao colhê-la a sós com ella O meu fado consultava.
Era triste e merencoria Nestes desertos lugares — Qual peito que geme afflicto Na soidão os seus pezares!
Chorou lagrimas comigo Tão d’alma e tão pungentes Que, qual Fada, me dizia Minhas desgraças pendentes.
E era tão meigo esse som Que no peito m’echoava — Que julgava anjo do céu Quem nest'hora me fallava:
«Porque triste, triste sentes «Da existencia o dissabor? «Porque choras gemebundo «Teus tormentos, tua dôr?
«Queres que eu Fada soletre «Tuas magoas — tua dôr? — «São apanagios da terra — «É saudade — é desamor!
«Descrido assim no mundo «Não sejas — crê e espera; «Pois que o tempo nas saudades «Muitas vezes as tempera!
«Eu sou planta e tambem sinto «Da saudade o crú rigor — «Quanta vez de balde espero «P’ra regar-me o horticultor?
«Quanta vez era dias turvos — «Anhélo os raios do Sol — «E quaes nuncios desta vinda «Os cantos do rouxinol? —
«Quanta vez d’alma suspiro «No inverno p’la primavera, «Que tanta vida me dá — «Nesse tempo em qu’ella impera?
«Infeliz não és tu só «Neste mundo d’illusão: — «Eu tambem soffro — e não tenho, «Como tu — um coração.
«Calla pois os teus tormentos «Em teu peito amargurado — «Neste teu cruel penar — «Sê crente e resignado!»
E assim a florinha Tão meiga fallou — Su’alma tão minha Na minha roçou, Que os prantos da terra No peito callando — Com ella scismando, Meu pranto findou!