Portuguese poem
Em mansa noite de prateada lua
by José da Silva Maia Ferreira (1827–1881)
... Curtio delirios vastos ... Entre tufões e abysmos!
Em mansa noite de prateada lua, Que alvissima banhava o horisonte, E com fulgor ameno reflectia Sobre de um rio, em suas puras aguas, E qu’espalhada, alvinitente e bella Tambem sobre os areaes de praia amena Finos christaes em lagos similhava, Desgrenhada, e a sós — e bella, e louca,
Qual ave perseguida a custo, e á força Por açor matreiro — divagava, Banhada em lagrimas, — a largos passos; Soluçando d’amor, e allucinada, No rosto o desespero — amor no peito, Beatriz, D. Beatriz, qu’imprevidente, Com pé ousado e firme, até ás fauces D’insondavel abysmo arremessára, Por amor de um Vate — o amor de esposo.
E era noite sacrosanta — Esta noite de tormento, Ao longe ardiam tochas Em lusido sabimento.
D’outra extrema cavalgando Vinha em ginete murzello D. Silveira — Cavalleiro — Valente — aguerrido e bello.
Trajava dó e armas negras, Quanto negro o coração, Nesta brida procurava O seu amor e paixão.
Mas de chôfre o seu corcel Refreia, e faz parar, Porque o povo era já tanto Qu’impedia o galopar.
Porque é perto o sahimento — O sahimento christão — D. Silveira joelho em terra Tambem faz sua oracão.
E em cânticos sagrados — tristes monges De consternado olhar — de dôr contrictos D’alma funereos psalmos repetiam Ao morto Deus — ao redemptor do mundo! Que triste sahimento! — Tristes todos, Quer tropa e Rei, quer povo e clero — todos Tristes uma só dôr n’alma sentiam! — Té o céu qu’inda ha pouco abrilhantado Com resplandentes — lucidos meteoros Tambem sua tristeza demonstrava Nas grossas nuvens, qu’era mui densas trevas, No firmamento prestes caminhavam. Mostrando um soluçar amargurado Á terra, que tambem triste gemia, Ao mar qu’em vagas horridas bramava! Mixta scena de dôr é neste mundo De Christo o sahimento! —
Já ía caminho novo D. Silveira galopando, Ventre em terra o seu corcel Novamente esporeando.
Qual era o norte não sei De tão fiel corredôr — O Cavalleiro que o guiava Levava no peito amor! —
Deslisava-se em seu rosto Um sorrir d’atra vingança - Parecia dominado Da maior desesperança.
Era D. Silveira o Vate, O amante de Beatriz Tão malfadada em amores — E nest’amor infeliz.
E neste galopar inda corria D. Silveira Donzel — tão Cavalleiro Quão Vate fôra nos seus dúlios cantos Vibrados pelo amor, ou p’la saudade Sentidos n’alma!
E corria e voava o corcel Qual, nos ares com força vibrando, O sibillo de frécha potente, Que percorre, ferindo e matando.
Eis que pára, e não sabe a magia De tão subito choque, — e o corcel — Espumando, cançado, não póde Por mais tempo suster-se fiel.
O ginete vacilla açodado Desta brida incessante e veloz — D. Silveira, raivoso, de um salto Se desmonta com gesto feroz.
Já baixavam sem brilho nas orlas Do horizonte os raios do sol, Já crepusc’lo da tarde brilhava Em seu mago e sublime arrebol. —
E ao longe p’la brisa açoitado Deslisava-se um veo côr de prata, Preso á coma de um corpo gentil Qu’extasia, revelia, e arrebata.
D. Silveira no instante o divisa, E não sei porque mago condão, Se lhe paira nos labios um riso, Um sorriso d’esp’rança e paixão!
Abandona o corcel, e apressado S’encaminha, e voz d’alma lhe diz Que é alli quem procura — que é ella — A sua dama — a famada Beatriz!
Alguns instantes mais — e um rosto pallido, Mudo e triste — sublime se pendia Por sobre rijo arnez de rijo ferro — Qu’immovel, orgulhoso acalentava
Lirio tão bello — decepado ha pouco Por impia fouce d’afiado gume! Tão rijo marmor recebia ufano — De pet’las merencorias e mimosas Mui dôce orvalho — nas sentidas lagrimas, Da donzella gentil — nos sempre bellos — Tristes, languidos olhos macerados!
Dez annos se passaram Novas delles não constou — Uns negam — outros affirmam Que o Donzel já se finou.
Que um Cavalleiro sem nome De uma noite entre o negror — Cruelmente o assassinara Com ferreo braço e traidor! —
E a dama — seus dias Tão cheios de dór — N’um claustro os rendera P’ra sempre ao Senhor! —