Versos Portuguese José da Silva Maia Ferreira Revelação de um sonho

Portuguese poem

Revelação de um sonho

by (1827–1881)

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Vem-nos na vida o prazer, Para a dôr nos mais pungir, Sóbe o mortal p’ra cahir, Gosa para mais soffrer.

«Sangue! Sangue! — Do inferno horriveis scenas, «Desviáe-m’as, oh! meu Deus, por piedade!» — Era este o bradar d’um desgraçado, Que após tremendo sonho, espavorido, Tremulo de terror, julgava ainda, Com ervado punhal, por mão iniqua, O halito da morte estar sorvendo!

Sonhava sobre a face jaspeada De candida donzella adormecida, Sem que rubra de pejo ella corásse, Nem dos labios o frémito podesse Attenta ouvir, um casto e doce beijo, De puro amôr nascido, ter impresso. — Tambem sonhava já estar cingido Por laço de marfim ao niveo colo Dessa Virgem, que pura, brando arfava Dulcissimos anhelos não scismados No embate desta vida attribulada!

Sonhava vêl-a Qual linda rosa, Sempre viçosa, E sempre bella.

Tão casta e pura, Como revella Brilhante estrella Em noite escura.

Tão carinhosa Como a ternura, Na desventura, De Mãe piedosa.

Desse extasis de amôr a si voltava, Quando por ferrea mão ao chão prostrado, Com força viu um ferro, traspassar-lhe, D’aguda ponta, o adyto do peito, E com voz de trovão ingente espectro, Morre! — Perfido! Morre!» — assim bradar-lhe. «— Tambem sonhava em noite umbrosa e feia, Em longiquo sanctuario a horas mortas, Onde languida luz vertendo apenas De baça lampada luctuosas sombras, Junto a aras sagradas soluçando Pudibunda donzella, qu’ajoelhada De amôr juras solemnes repetia: E quando a dextra sua em laço eterno

Á delle, venerando Sacerdote, Ante o Deus Redemptor p’ra sempre unia, D’improviso no Templo as naves todas, A arcada, e o chão forte tremeram: E da lampada a luz, que vacilante Seu arranco de morte já exhalava, De trevas innundando o desposorio, Eis subito se mostra o mesmo espectro D’hedionda catadura e ferro alçado, Brandindo-o, e sopesando-o até craval-o No peito do esposo desgraçado, Qu’envolto em sangue aos seus pés lhe roja De amôr surdo gemido só dizendo E o nome de — Carlinda! — repetindo. — Gargalhada infernal então crepita Dos chammejantes labios do assassino, Cujos échos ao longe retumbando Do flagicio dispertam o sonhador.

Oh! que dôr angustiada, Lacerada, Em seu peito s’infiltrou, Que se Deus lhe não valera, Suppozera Que no sonho se finou.

Mago sopro do Senhor, Nesta dôr, Santa reza lhe inspirou,

Que rezando-a piedoso, Venturoso Logo — logo melhorou.

E esta reza que do peito, Satisfeito Murmurando revelava, Era reza contristada E ensinada Por seu bem que tanto amava.

Era trova mui saudosa, Fervorosa, Gravada em letras d’oiro, Que pudibunda donzella Pura e bella Lhe offertou como thesoiro.

E o thesoiro era prenda, Com legenda, Neste sonho revelada, Era trova virginal, Sem igual Por seu amôr inspirada.

«Ó Deus de minh’alma, «Ó doce candor, «Dos justos a palma, «Do mundo Senhor,

«Uni o meu fado, «Já tão desgraçado, «Ao fado scismado «Do meu Trovador!»