Portuguese poem
Recordação!
by José da Silva Maia Ferreira (1827–1881)
De noite mui linda Tu queres Arminda
Que lembre-te ainda Um sonho d’amor? Attende bondosa, Com alma piedosa A chamma vap’rosa Do teu Trovador.
Nos Ceus esmaltadas De brilho fadadas — D’encantos rodeadas Se viam lusir — Estrellas mimosas — Mui bellas, — vaidosas — Tão magas — radiosas — De casto sorrir!
Mais longe distante, Tambem radiante Se via brilhante A Lua a fulgir; — E os mares bramindo Dos ventos fugindo — Estava eu sentindo Seu forte rugir!
Na pôpa assentado De um barco açodado Por ventos soprado Me puz a pensar
Na vida sonhada Qu’eu tive passada Comtigo gosada De mago scismar!
Ás vezes eu cria Com forte magia Que só eu te via Comigo a folgar — Ás vezes pensando Que ouvia-te arfando Teu seio tão brando No meu a poisar!
Então extasiado Do mundo olvidado Comtigo abraçado Me puz a beijar Teus labios mimosos, Teus olhos fermosos — Que vinham ferv’rosos A mente escaldar!
E em fogo divino Mui casto e mui dino Vagava sem tino Em dôce candôr Ao teu abraçado Não sei se acordado
Meu corpo extasiado Nos sonhos d’amor!
Depois dispertando Meus olhos fitando Te estava mirando No teu dormitar — Como eras formosa! Quanto eras mimosa, Arminda ditosa No teu respirar!
Travando da lyra Que tanto m’inspira Nos sons que delira Me puz a trovar — Cantei o teu rosto — Divino composto — A mim só exposto Que o sei adorar!
Por cum’lo d’anhélos Teus bellos cabellos Da côr dos meus zèlos Me puz a affagar: — Mas eis que disperto E vejo-me — é certo — Já ter descuberto Que é tudo um sonhar!
Eu vi-te! — E acordado O sonho gosado Agora lembrado Não posso esquecer! Fugio-me a ventura Tão maga e tão pura — Se o sonho não dura Porque hei de viver?! —