Portuguese poem
A cova
by Luís Delfino (1834–1910)
Faz mais larga essa cova, estúpido coveiro; Pois não vês que são dois buscando o mesmo leito? É preciso que caiba um longo travesseiro, Para dormirem face a face, e peito a peito.
Virei deitar-me em tempo: hoje não, não me deito Sem que nos braços meus a carregue primeiro: Quero cobri-la bem, pôr-lhe o tronco direito; Que é muito longo sempre o sono derradeiro.
Guarda do cemitério, o jardineiro aí fica, Quero roseiras só, quero muitas roseiras; Que ardam rosas em que seu corpo multiplica.
Que os pássaros aqui cantem horas inteiras: Que esta leiva, em que está da terra a flor mais rica, Seja o teu ninho, amor, quando um ninho, amor, queiras.