Portuguese poem
O carreiro
by Luís Delfino (1834–1910)
Desde a alva anda o carreiro a trabalhar cantando, Chapéu de palha à orelha, alta a aguilhada, e ao lado, Roupa branca da terra, um cinturão floreado, Ao mugir de dois bois, que vão a passo brando:
O braço livre à canga, ele os conduz: o arado Corta a leiva, abre o sulco, avança, freme, ondeando, Tece o ninho ao trigal; envolve-o aéreo bando, E ouve um flavo rumor de luz batendo o prado.
Pensa. — As bocas, que rasga, um fogo intenso engolem, Fogo que coalha em vivo, em palpitante pólen!... Chia-lhe o ouvido. — Pára; e, as mãos pondo às ilhargas,
Sorri-se ao imaginar que cai tanto pó de oiro Da transparência azul das asas de um besoiro, Largas, como a campina... e inda talvez mais largas!...