Portuguese poem
O castigo do ódio
by Luís Delfino (1834–1910)
Deste malvado o leão éreo em brasa, o tormento Do ecúleo, que o espedaça, o hediondo pesadelo, Que o arrasta ao esgoto, à unha amarrado o cabelo, Como folha que joga em redemoinho o vento;
A serpente, que o enrosca, e o torce num novelo, Cuspindo-lhe na boca um visgo peçonhento; Que às órbitas lhe arranca os dois olhos, num zelo, Num luxo de quem quer pungir a fogo lento;
Essa dança macabra, onde ulula a tortura, Onde o crime flagela o crime, e em horrendo bródio A própria infâmia em si açoita a vil criatura:
É ver que há para o bom sempre um anjo custódio, Que lhe anda a rir em torno a festa da ventura, Enquanto, à alma agarrado, o rói um verme — o ódio.