Portuguese poem
O coração
by Luís Delfino (1834–1910)
Tenho cá dentro em mim um pássaro que salta, Que não repousa, que não dorme noite e dia: Quem dentro do meu peito acaso o prenderia? Por que não canta nunca? e o que quer? que lhe falta?
De que estranho tormento ele vive? o que exalta Sua existência, que não me deixa, e porfia? As asas, que ele estende em mim, estenderia Ao mais profundo mar, à montanha mais alta.
Se o cárcere rompesse, em que abismo medonho De rojo cairia, o céu todo inda estando Muito aquém da ambição que o devora: suponho...
Nesse vórtice louco acabas, miserando... Ó coração, tu és um hóspede enfadonho; Quando, abutre, hás de em mim não mais fartar-te? Quando?