Portuguese poem
Foi-se gastando a esperança
Mote.
Foi-se gastando a esperança, Fui entendendo os enganos; Do mal ficárão-me os danos, E do bem só a lembrança.
Glosa.
Nunca em prazeres passados Tive firmeza segura, Antes tão arrebatados, Qu’inda não erão chegados, Quando mos levou ventura. E como quem desconfia Ter em tal sorte mudança, No meio desta porfia, De quanto bem pretendia Foi-se gastando a esperança. Não tive por desatino A occasião de perdella; Mas foi culpa do destino, Que a ninguem, como mais dino, Amor pudéra sostella. Dei-lhe tudo o qu’era seu, Não receando taes danos Deste, a quem alma lhe deu: Quando ja não era meu, Fui entendendo os enganos. Fiquei deste mal sobejo A quem a causa compete Dizer-lhe tudo o que vejo, Que Amor acceita o desejo, Mas mente no que promete.
Que se a mi se me obrigou A dar-me bens soberanos, Foi engano que ordenou; Que do bem tudo levou, Do mal ficárão-me os danos.
E se dor tão desigual Soffro em mi com padecellos, Quero de novo soffrellos; Que por a causa ser tal, Não determino offendellos. Dobre-se o mal, falte a vida, Cresça a fé, falte a esperança, Pois foi mal agradecida; Fique a dor n’alma imprimida, E do bem só a lembrança.