Versos Portuguese Machado de Assis Dante

Portuguese poem

Dante

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(PURGATORIO, canto XXV)

Acabara o ladrão, e, ao ar erguendo As mãos em figas, deste modo brada: «Olha, Deus, para ti o estou fazendo!»

E desde então me foi a serpe amada, Pois uma vi que o collo lhe prendia, Como a dizer: «não falarás mais nada!»

Outra os braços na frente lhe cingia Com tantas voltas e de tal maneira Que elle fazer um gesto não podia.

Ah! Pistoia, por que n'uma fogueira Não ardes tu, se a mais e mais impuros, Teus filhos vão nessa mortal carreira?

Eu, em todos os circulos escuros Do inferno, alma não vi tão rebellada, Nem a que em Thebas resvalou dos muros.

E ele fugiu sem proferir mais nada. Logo um centauro furioso assoma A bradar: «Onde, aonde a alma damnada?»

Maremma não terá tamanha somma De reptis quanta vi que lhe ouriçava O dorso inteiro desde a humana coma.

Junto á nuca do monstro se elevava De asas abertas um dragão que enchia De fogo a quanto alli se approximava.

«Aquelle é Caco,--o Mestre me dizia,-- Que, sob as rochas do Aventino, ousado Lagos de sangue tanta vez abria.

«Não vae de seus irmãos acompanhado Porque roubou malicioso o armento Que alli pascia na campanha ao lado,

«Hercules com a maça e golpes cento, Sem lhe doer um decimo ao nefando, Poz remate a tamanho atrevimento.»

Ele falava, e o outro foi andando. No emtanto embaixo vinham para nós Trez espiritos que só vimos quando

Atroára este grito: «Quem sois vós?» Nisto a conversa nossa interrompendo Elle, como eu, no grupo os olhos pôz.

Eu não os conheci, mas succedendo, Como outras vezes succeder é certo, Que o nome de um estava outro dizendo,

«Cianfa aonde ficou?» Eu, por que esperto E attento fosse o Mestre em escutal-o, Puz sobre a minha boca o dedo aberto.

Leitor, não maravilha que acceital-o Ora te custe o que vás ter presente, Pois eu, que o vi, mal ouso acredital-o.

Eu contemplava, quando uma serpente De seis pés temerosa se lhe atira A um dos trez e o colhe de repente.

Co'os pés do meio o ventre lhe cingira, Com os da frente os braços lhe peava, E ambas as faces lhe mordeu com ira.

Os outros dous ás coxas lhe alongava, E entre ellas insinua a cauda que ia Tocar-lhes os rins e dura os apertava.

A hera não se enrosca nem se enfia Pela arvore, como a horrivel féra Ao peccador os membros envolvia.

Como se fossem derretida cera, Um só vulto, uma côr iam tomando, Quaes tinham sido nenhum delles era.

Tal o papel, se o fogo o vae queimando, Antes de negro estar, e já depois Que o branco perde, fusco vae ficando.

Os outros dous bradavam: «Ora pois, Agnel, ai triste, que mudança é essa? Olha que já não és nem um nem dous!»

Faziam ambas uma só cabeça, E na unica face um rosto mixto, Onde eram dous, a apparecer começa.

Dos quatro braços dous restavam, e isto, Pernas, coxas e o mais ia mudado N'um tal composto que jamais foi visto.

Todo o primeiro aspecto era acabado; Dous e nenhum era a cruel figura, E tal se foi a passo demorado.

Qual camaleão, que variar procura De sebe ás horas em que o sol esquenta, E correndo parece que fulgura,

Tal uma curta serpe se apresenta, Para o ventre dos dous corre accendida, Livida e côr de um bago de pimenta.

E essa parte por onde foi nutrida Tenra creança antes que á luz saisse, N'um delles morde, e cae toda estendida.

O ferido a encarou, mas nada disse; Firme nos pés, apenas bocejava, Qual se de febre ou somno alli caisse.

Frente a frente, um ao outro contemplava, E á chaga de um, e á boca de outro, forte Fumo saía e no ar se misturava.

Cale agora Lucano a triste morte De Sabello e Nasidio, e attento esteja Que o que lhe vou dizer é de outra sorte.

Cale-se Ovidio e neste quadro veja Que, se Arethusa em fonte nos ha posto E Cadmo em serpe, não lhe tenho inveja.

Pois duas naturezas rosto a rosto Não transmudou, com que elas de repente Trocassem a materia e o ser opposto.

Tal era o accordo entre ambas que a serpente A cauda em duas caudas fez partidas, E a alma os pés ajuntáva estreitamente.

Pernas e coxas vi-as tão unidas Que nem leve sinal dava a juntura De que tivessem sido divididas.

Imita a cauda bifida a figura Que alli se perde, e a pele abranda, ao passo Que a pelle do homem se tornava dura.

Em cada axilla vi entrar um braço, A tempo que iam esticando á fera Os dous pés que eram de tamanho escasso.

Os pés de traz a serpe os retorcêra Até formarem-lhe a encoberta parte, Que no infeliz em pés se convertêra.

Emquanto o fumo os cobre, e de tal arte A côr lhes muda e põe á serpe o vello Que já da pelle do homem se lhe parte,

Um caiu, o outro ergueu-se, sem torcel-o Aquelle torvo olhar com que ambos iam A trocar entre si o rosto e a vel-o.

Ao que era em pé as carnes lhe fugiam Para as fontes, e alli do que abundava Duas orelhas de homem lhe saiam.

E o que de sobra ainda lhe ficava O nariz lhe compõe e lhe perfaz E o labio lhe engrossou quanto bastava.

A boca estende o que por terra jaz E as orelhas recolhe na cabeça, Bem como o caracol ás pontas faz.

A lingua, que era então de uma só peça, E prestes a falar, fendida vi-a, Emquanto a do outro se une, e o fumo cessa.

A alma, que assim tornado em serpe havia, Pelo valle fugiu assobiando, E esta lhe ia falando e lhe cuspia.

Logo a recente espadua lhe foi dando E á outra disse: «Ora com Buoso mudo, Rasteje, como eu vinha rastejando!»

Assim na cova setima vi tudo Mudar e transmudar; a novidade Me absolva o estylo desornado e rudo.

Mas que um tanto perdesse a claridade Dos olhos meus, e turva a mente houvesse, Não fugiram com tanta brevidade,

Nem tão occultos, que eu não conhecesse Puccio Sciancato, unica alli vinda Alma que a fórma propria não perdesse; O outro chóral-o tu, Gaville, ainda.