Versos Portuguese Machado de Assis Elegia

Portuguese poem

Elegia

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A bondade choremos innoccente Cortada em flôr que, pela mão da morte, Nos foi arrebatada d'entre a gente.

CAMÕES.

Se, como outr'ora, nas florestas virgens, Nos fosse dado--o esquife que te encerra Erguer a um galho de arvore frondosa, Certo, não tinhas um melhor jazigo Do que alli, ao ar livre, entre os perfumes Da florente estação, imagem viva De teus cortados dias, e mais perto Do clarão das estrellas.

Sobre teus pobres e adorados restos, Piedosa a noite, alli derramaria Do seus negros cabellos puro orvalho; Á beira do teu ultimo jazigo Os alados cantores da floresta Iriam sempre modular seus cantos; Nem letra, nem lavor de emblema humano, Relembraria a mocidade morta; Bastava só que ao coração materno, Ao do esposo, ao dos teus, ao dos amigos, Um aperto, uma dôr, um pranto occulto, Dissesse:--Dorme aqui, perto dos anjos, A cinza de quem foi gentil transumpto De virtudes e graças.

Mal havia transposto da existencia. Os dourados umbraes; a vida agora Sorria-lhe toucada dessas flôres Que o amor, que o talento e a mocidade Á uma repartiam.

Tudo lhe era presagio alegre e doce; Uma nuvem sequer não sombreava, Em sua fronte, o iris da esperança; Era, emfim, entre os seus a copia viva Dessa ventura que os mortaes almejam, E que raro a fortuna, avessa ao homem, Deixa gozar na terra.

Mas eis que o anjo pallido da morte A presentiu feliz e bella e pura, E, abandonando a região do olvido, Desceu á terra, e sob a aza negra A fronte lhe escondeu; o fragil corpo Não pôde resistir; a noite eterna Veio fechar seus olhos; Emquanto a alma abrindo As azas rutilantes pelo espaço, Foi engolfar-se em luz, perpetuamente, No seio do infinito; Tal a assustada pomba, que na arvore O ninho fabricou,--se a mão do homem Ou a impulsão do vento um dia abate O recatado asylo,--abrindo o vôo, Deixa os inuteis restos E, atravessando airosa os leves ares, Vai buscar n'outra parte outra guarida.

Hoje, do que ora inda lembrança resta, E que lembrança! Os olhos fatigados Parecem ver passar a sombra della; O attento ouvido inda lhe escuta os passos; E as teclas do piano, em que seus dedos Tanta harmonia despertavam antes, Como que soltam essas doces notas Que outr'ora ao seu contacto respondiam.

Ah! pezava-lhe este ar da terra impura, Faltava-lhe esse alento de outra esphera, Onde, noiva dos anjos, a esperavam As palmas da virtude.

Mas, quando assim a flôr da mocidade Toda se esfolha sobre o chão de morte, Senhor, em que firmar a segurança Das venturas da terra? Tudo morre; Á sentença fatal nada se esquiva, O que é fructo e o que é flôr. O homem cego Cuida haver levantado em chão de bronze Um edificio resistente aos tempos, Mas lá vem dia, em que, a um leve sopro, O castello se abate, Onde, doce illusão, fechado havias Tudo o que de melhor a alma do homem Encerra de esperanças.

Dorme, dorme tranquilla Em teu ultimo asylo; e se eu não pude Ir espargir tambem algumas flôres Sobre a lagea da tua sepultura; Se não pude,--eu que ha pouco te saudava Em teu erguer, estrella,--os tristes olhos Banhar nos melancolicos fulgores, Na triste luz do teu recente occaso, Deixo-te ao menos nestes pobres versos Um penhor de saudade, e lá na esphera Aonde approuve ao Senhor chamar-te cedo, Possas tu ler nas pallidas estrophes A tristeza do amigo.