Versos Portuguese Machado de Assis No Espaço

Portuguese poem

No Espaço

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Rompendo o ultimo laço Que ainda á terra as prendia, Encontrárão-se no espaço Duas almas. Parecia Que o destino as convocára

Para aquella mesma hora; E livres, livres agora, Correm a estrada do céo, Vão ver a divina face: Uma era a de Lovelace, Era a outra a de Romeo.

Voavão... porém, voando Fallavão ambas. E o céo Ia as vozes escutando Das duas almas. Romeo De Lovelace indagava Que fizera n'esta vida E que saudades levava.

«Eu amei... mas quantas, quantas, E como, e como não sei; Não seria o amor mais puro, Mas o certo é que as amei. Se era tão fundo e tão vasto O meu pobre coração! Cada dia era uma gloria, Cada hora uma paixão. Amei todas; e na historia Dos amores que senti

Nenhuma d'aquellas bellas Deixou de escrever por si.

«Nem a patricia de Helena, De verde myrtho c'roada, Nascida como açucena Pelos zephyros beijada, Aos brandos raios da lua, Á voz das nymphas do mar, Trança loura, espadua nua, Calma fronte e calmo olhar.

«Nem a belleza latina, Nervosa, ardente, robusta, Levantando a voz augusta Pela margem peregrina, Onde do écho em seus lamentos, Por virtude soberana, Repete a todos os ventos A nota virgiliana.

«Nem a doce, aerea Ingleza, Que os ventos frios do norte Fizerão fria de morte Mas divina de belleza.

«Nem a ardente Castelhana, Córada ao sol de Madrid, Belleza tão soberana, Tão despotica no amor, Que troca os trophéos de um Cid Pelo olhar de um trovador.

«Nem a virgem pensativa Que as margens do velho Rheno, Como a pura sensitiva Vive das auras do céo E murcha ao mais leve aceno De mãos humanas; tão pura Como aquella Margarida Que a Fausto um dia encontrou.

«E muitas mais, e amei todas, Todas minha alma encerrou. Foi essa a minha virtude, Era esse o meu condão. Que importava a latitude? Era o mesmo coração, Os mesmos labios, o mesmo Arder na chamma fatal.... Amei a todas e a esmo.»

Lovelace concluíra; Entravão ambos no céo; E o Senhor que tudo ouvira, Voltou os olhos immensos Para a alma de Romeo: «E tu? — Eu amei na vida Uma só vez, e subi D'aquella cruenta lida, Senhor, a acolher-me em ti.» Das duas almas, a pura, A formosa, olhando em face A divindade ficou; E a alma de Lovelace De novo á terra baixou.

D'aqui vem que a terra conta, Por um decreto do céo, Cem Lovelaces n'um dia E em cem annos um Romeo.