Portuguese poem
No limiar
Cahia a tarde. Do infeliz á porta, Onde mofino arbusto aparecia De tronco secco e de folhagem morta,
Elle que entrava e Ella que sabia Um instante pararam; um instante Ella escutou o que Elle lhe dizia;
— «Que fizeste? Teu gesto insinuante Que lhe ensinou? Que fé lhe entrou no peito Ao mago som da tua voz amante?
«Quando lhe ia o temporal desfeito De que raio de sol o mantiveste? E de que flores lhe forraste o leito?»-
Ella, volvendo o olhar brando e celeste, Disse: — «Varre-lhe a alma desolada, Que nem um ramo, uma só flor lhe restel
«Torna-lhe, em vez da paz abençoada, Uma vida de dôr e de miseria, Uma morte continua e angustiada.
«Essa é a tua missão torva e funerea. Eu procurei no lar do infortunado Dos meus olhos verter-lhe a luz etherea.
«Busquei fazer-lhe um leito semeado De rosas festivaes, onde tivesse Um somno sem tortura nem cuidado.
«E porque o céu que mais se lhe ennegrece, Tivesse algum reflexo de ventura Onde o cançado olhar espairecesse,
«Uma restea de luz suave e pura Fiz-lhe descer á erma phantasia, De mel ungi-lhe o calix da amargura.
«Foi tudo vão, — foi tudo van porfia, A ventura não veio. A tua hora Chega na hora que termina o dia.
«Entra» — E o virgineo rosto que descóra Nas mãos esconde. Nuvens que correram Cobrem o céo que o sol já mal colora.
Ambos, com um olhar se comprehenderam. Um penetrou no lar com passo ufano; Outra tomou por um desvio. Eram: Ella a Esperança, Elle o Desengano.