Portuguese poem
Noivado
Vês, querida, o horizonte ardendo em chammas? Além d'esses outeiros Vai descambando o sol, e á terra envia Os raios derradeiros; A tarde, como noiva que enrubece, Traz no rosto um véu molle e transparente; No fundo azul a estrella do poente Já timida apparece.
Como um bafo suavissimo da noite, Vem sussurrando o vento As arvores agita e imprime ás folhas O beijo somnolento. A flôr ageita o calix: cedo espera O orvalho, e emtanto exhala o doce aroma; Do leito do oriente a noite assoma Como uma sombra austera.
Vem tu, agora, ó filha de meus sonhos, Vem, minha flôr querida; Vem contemplar o céu, pagina santa Que amor a ler convida; Da tua solidão rompe as cadeias; Desce do teu sombrio e mudo asylo; Encontrarás aqui o amor tranquillo..... Que esperas? que receias?
Olha o templo de Deus, pomposo e grande; Lá do horizonte opposto A lua, como lampada, já surge A alumiar teu rosto; Os cirios vão arder no altar sagrado, Estrellinhas do céu que um anjo acende; Olha como de balsamos rescende A c'rôa do noivado.
Irão buscar-te em meio do caminho As minhas esperanças; E voltarão comtigo, entrelaçadas Nas tuas longas tranças; No emtanto eu preparei teu leito á sombra Do limoeiro em flôr; colhi contente Folhas com que alastrei o solo ardente De verde e molle alfombra.
Pelas ondas do tempo arrebatados, Até á morte iremos, Soltos ao longo do baixel da vida Os esquecidos remos. Firmes, entre o fragor da tempestade, Gosaremos o bem que amor encerra; Passaremos assim do sol da terra Ao sol da eternidade.