Versos Portuguese Manuel de Oliveira Paiva II (Sentada estava um dia à porta…)

Portuguese poem

II (Sentada estava um dia à porta…)

by (1861–1892)

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I

Sentada estava um dia à porta da choupana A preciosa avó, a velha Mariana. Muito de coisas velhas velhos se namoram; Corriam-lhe na mente os tempos que se foram. Olhava para os matos, matos tão bonitos! Mirava-se no olhar da meiga Zabelinha... Então como que ouvia imensidão de gritos, Sentia estremecer o teto da casinha:

Outrora esta cidade, a bela Fortaleza, Teve uma indigestão de peste e de pobreza: Os lindos arrabaldes eram campo enorme Coberto de barracas de homens seminus, O brado para — alerta! — um grito de — ai Jesus!, — Uns panos molambudos eram uniforme, A carabina Spencer — saco roto e sujo; Viviam como a besta, ou como o caramujo; Um monstro o inimigo. Quer Osório imenso, Pelotas, ou Caxias, ou Napoleão, Haviam de queimar-lhe adulador incenso: O estômago vazio, a espada cai no chão.

Foi nesse ingente mar de ondas pestilentas Que naufragar vieram barcas bolorentas Chamadas a nobreza do Ceará sertão. A honra da donzela a níquel de tostão, Zombando da Moral, da morte nos barrancos, Mercadejou a raça dos patifes brancos: Como mercadejou outrora os Africanos A gente que descansa, a torpe, vil caterva Que hoje engorda o chão para brotar a erva. Coitados! Nem sabiam que p'ra nós humanos Conforme toca o tempo assim o esperto dança, Mas há de se abaixar co'o prato da Balança!

E basta a digressão, já vejo bom Leitor — Se é que calças tens; se trajas o corpinho Permite que te diga — vejo santo Amor Que me entendeste bem, que os pais do meu Cravinho De gente boa foram que levou o diabo.

Ao Credo vou agora, ouviste já o Lavabo.

Se acaso o orgulho vem descendo até o filho... Então, — como em verão se vai do saco o milho A bárbara invasão do vândalo gorgulho O saco da família rompe-se de orgulho. E sempre são uns grãos apodrecidos, ocos, Não dão um bom cuscus, nem com milhões de cocos.

II

Não posso admirar-te, oh Natureza, Pois não sei quem te fez... Responde tu, maluca, oh Lua desfrutável, Quem foi que fez a tua morbideza, O sol, a terra, o cosmos, o insondável: Seria algum inglês?

Ironia! Ironia! não te metas, Mete a língua no saco. Estarás tu girando, oh minha estulta musa? Não sabes tu que impenetráveis gretas Possui a criação? Musa obtusa, Me fazes dar cavaco!

Desculpa, oh bom amigo, tens bom tento. E tomar o tabaco É permitido ao padre até na confissão Interrompendo assim o sacramento. Por isto não me dés excomunhão Por pecado tão fraco.

Tomba da nuvem fria a chuva espessa Dos ventos através; Brota do chão veloz o rio caudaloso... Assim — que hei de fazer? — desta cabeça Brota um mundo de asneiras pavoroso E eu mando-as pra vocês.

III

Izabel tinha dez anos. Dez páginas lindas, belas, Escritas com mil estrelas Narrando as cousas singelas, Singelas dos verdes anos.

Andava de chinelinho, De saia curta e de chita, Bocazinha pequetita E tudo o mais — tão bonita! Cabia num chinelinho.

As unhas porém compridas, Os cabelos mal cuidados, Pés e rosto mal lavados... As regras dos bons tratados Nunca ali foram cumpridas.

Izabel era um poema Escrito em papel de embrulho; Era um terno e meigo arrulho, Do rio leve marulho; Izabel era um poema!

Caíra de cheio a noite. Mariana ainda estava Debaixo do pé de fava, Que a Lua amante beijava Rasgando o lençol da noite.

Vês, oh filha, aquela estrela Que a nuvem cobriu agora? Assim sumiram-se outrora Aqueles que nesta hora Nos céus vivem como a estrela.

Assim morreu nosso nome Sufocado entre as desgraças; E hoje entre as canalhaças Ouvimos torpes chalaças, Somos pobres e sem nome.

Não percamos a semente Vês ali aquela luz Que ao pé da rede reluz: Tu vais ser o meu Jesus Que planta nova semente.

Vês, oh filha, aquela estrela Que sumiu-se aos olhos teus?!... Assim... que digo, meu Deus?!... Pode a ti, amores meus, Enuviar-se a estrela!

Vou te levar à comadre, A santa madrinha tua! — Oh! Por Deus, dindinha, a Lua Não passa a noite na rua... — Vou te levar à comadre!

As reticências são bem boas pílulas. Es mais inteligente do que eu, E portanto entendeste. Ora pílulas! Toca adiante, Leitor, que aqui vou eu.