Portuguese poem
I (À memória de Luiz Gama)
by Manuel de Oliveira Paiva (1861–1892)
À memória de Luiz Gama
I
Imerso na espessura da floresta Eu andava nas trevas tateando... O céu sorria além, de quando em quando; Parecia haver lá medonha festa!
Nos úmidos pauis da selva infesta O fogo fátuo andava serpeando... Ramos d'árvores no ar cambaleando, Rolando pelo chão, quebrando a testa...
Tremia o corpo meu de medo e frio, Como treme do órgão o som tristonho, Como treme a cascata, ao sol, no rio.
Rasgou-se, enfim, dos céus o véu medonho... O Infinito afinal se descobriu, Mostrou-me as negras faces, tão risonho!...
II
E a estrada real me conduzira — Depois que à luz do céu fugi da selva — Para um vale sorrindo sob a relva, Linda concha forrada com safira.
Chorava o espírito meu na solidão! Nem a voz do oceano compassada, Nem a reza da brisa cochichada, Me faziam sorrir o coração.
— Quero luz, quero luz, Senhor das matas Oh Médico Divino, as cataratas Espedaçai dos olhos de minha alma!
E o pano do nascente levantou-se... Tão linda no cenário apresentou-se A eterna atriz, a Lua! Eu bati palma!
III
E o eco respondeu no outeiro oposto. Assustado tremi, voltei o rosto: Uma casa, uma casa ali se ergue, Hei de ir lá, seja paço, ou seja albergue!
A minha amiga, a Lua carinhosa Apontava com a destra luminosa A pirâmide além da cor de arminho E derramava luz sobre o caminho.
Cheguei ao pé da casa era choupana, Que envolta num rebuço de umidade Parecia de longe de alvaiade.
— Entrai, senhor, não há pessoa humana A quem não escravize a sorte insana E libertar não possa a caridade.
IV
Acorda, oh Izabel, acende a luz, Faze o fogo e prepara o bom café; Tu bem sabes que ordena o pai da fé Tratemos quem chegar como a Jesus.
Agasalhei-me assim no bom casebre. Conversei com a velha até o dia Mostrar no alto cume a penedia,
Distinguindo o que é lobo do que é lebre. Izabel, num cantinho da palhoça, Junto à luz do fogão, era tão linda!
Oh como é doce este viver da roça! Na vasta solidão risonha, infinda, Que de igual ao sorriso de u'a moça Que as torpezas do amor nem sonha ainda?
V
Alto dia que andando na cidade O sofrer dessa noite veio à mente, Da dor envolta em mel, do frio quente, Eu confesso, meu Deus, tive saudade.
Saudades dos espinhos, da umidade, Do temporal medonho, bruto, ingente, Com tanto que viessem juntamente O luar, a choupana, a felicidade!
A tela de minha alma tal sofreu As impressões das tintas naturais, Que em versos trasladar ela entendeu,
Inda que coxinguentos e banais, O que de então por diante aconteceu Com respeito a Izabel e nada mais.