Versos Portuguese Manuel de Oliveira Paiva III (Do tempo ainda a rápida ampulheta)

Portuguese poem

III (Do tempo ainda a rápida ampulheta)

by (1861–1892)

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I

Do tempo ainda a rápida ampulheta Não marcara seis horas, Ainda envolto em grossa manta preta Dormia o velho sol, pai das auroras.

E já toda a família da madrinha Da menina gentil, da Zabelinha, Mergulhava nas águas buliçosas, Banhava as belas carnes cor de rosas: Como nos céus a Lua se metia Das nuvens vaporosas, Ligeiras, luminosas, De instante a instante na sutil bacia.

II

Por entre os coqueirais do Pajeú Já penetrava o sol; As cunhãs com as cuias de beiju, As velhas rezadeiras de lençol, Os matutos co'as cargas de farinha, Vendedoras da Feira, os da geninha — Corrupção da gostosa gengibirra - Na hora em que se acorda e que se espirra Saindo ao ar da frígida manhã, Transitavam na rua: Como transita a Lua Entre as nuvens do céu linda e louçã.

Onde foi que o jardim da Aclamação, No Rio de Janeiro, Pôde mais comover o coração — Apesar de cheirar muito a dinheiro — Que o nosso majestoso Pajeú? Onde contrasta a gia, o cururu, Com o vem-vem, o canário, a patativa! Onde esbelta e sem ordem surge altiva A prima do poeta, a Natureza: Como na humanidade Surgiu a Liberdade Dos lodaçais da Revolução Francesa! E como, agora mesmo, Sutil, divina, a esmo, Brotou a Abolição na Fortaleza!

Os bandos das graúnas se levantam, Entre os carnaubais, Entoam para os céus cantos que encantam, Que nos fazem bradar: Basta, não mais! — Erguem-se assim da rede as cearenses, Nossas priminhas belas. — Fluminenses! Vós também sois bonitas, eu bem sei; Haveis porém de obedecer a lei: — O clarão desse sol que chamam Corte Encadeia as moreninhas, Que tombam como as rolinhas De alva parede ao chão de negra morte.

Oh não te zangues Fluminense bela! Oh não me causes pânico! Venhas tu do Mozart, ou da Cancela, De Botafogo ou do Jardim Botânico, Do Príncipe Imperial, ou do Sant'Ana, Da rua do Ouvidor.., confessa, humana, Que a estação que passas em Petrópolis, Na Tijuca, em Friburgo, em Teresópolis, Faz-te esquecer as belas companheiras Que nos salões vaidosas Preferem ir pomposas!... Façamos nossas pazes, brasileiras!

III

Rodava lentamente um velho carro De um'alta família. Lançando aos transeuntes vil escarro, De olhos encovados p'la vigília, Olhar cínico, faces pardacentas, Vinha dentro um rapaz. — Cousas cruentas Sua figura só por si dizia: Como apontam o odor de maresia, A roupa tinta pelo cajueiro, A pele requeimada, A fala compassada, Entre os homens da praia o jangadeiro.

la se refazer em Mecejana O pobre libertino. Era um filho de Dona Marciana, Que fora para a Europa, inda menino, Aprender a riscar na pedra o giz, Nas grandes faculdades de Paris. Aprendera, porém, uma outra cousa Que costuma levar o moço à lousa. Não deixa de saber engenharias Quem conhece o champagne, Muito embora o que ganhe Ponha a juro no jogo e nas orgias.

Ao encontrar o seu mimoso filho, Disse-lhe: Já vais? — Sim, senhora. E estaca o seu tordilho, E para o carro sob os coqueirais... De Izabel, Marciana era a madrinha. Vinha um bonde ao tinir da campainha. E moças, carro e bonde confrontaram-se: Do bonde olhares mil relancearam-se Muito naturalmente sobre elas... — Depois minha batuta Dirá quem desta luta Foi ferido e feriu, feios ou belas.