Versos Portuguese Manuel Maria Barbosa du Bocage Com que satisfação, com que alegria

Portuguese poem

Com que satisfação, com que alegria

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Com que satisfação, com que alegria Vejo da minha Olinda as ternas letras! Retrato da innocencia, me affiguras O que por mim passou, extranho effeito De um coração sensivel, não manchado Ainda pela mão da iniquidade. Falla, não temas exprimir-te, Olinda, Que se culpavel fores de outrem aos olhos, Aos meus és innocente, e assim te julgo.

Da inviolavel lei da Natureza A que sujeita estás, bem como tudo, Nascem, querida amiga, os teus transportes: Só provém d′ella, é ella que t′os causa; Ella os mitigará em tempo breve, Dando-te próvida um remedio activo. A triste educação, que ambas tivemos, Mais desenvolve os ternos sentimentos Dos que amar só procuram, e não podem Na solidão senão atormentar-se. Do recato das filhas temerosos Pensam os rudes paes, que em sopeal-as Alcançam extinguir o voraz fogo Que sopra a Natureza, e que ella atêa. Nescios, de amor lhe formam attentados, Que o coração desmente, e que não póde Saber justificar a razão mesma.

Benignas emoções chamam flagicios, Que infernaes penas castigar costumam: Sem que atinem o modo por que devam Tornal-as puras, e do crime alheias, Porque do crime o amor não diff′renceam, Amor e crime o mesmo lhes figuram. Ah! que de um pae o emprego não tolera Maximas impostoras, vis idéas Que religião não soffre, e que forcejam Para c′oa religião auctorisal-as. Saiba-se pois té onde o culto, a honra De um Deus se estende, e quaes limites devem Marcar-se ás impressões da natureza: Em vez de aferrolhar as tristes filhas, Busquem mostrar-lhes da virtude a senda, Do vicio a estrada com disvello attento. Pois que impureza e amor um rumo seguem Consiste o mal ou o bem na escolha d′este.

Sim, cara Olinda: como tu, eu propria Falta da sociedade, porque n′ella Viam meus paes o escolho da innocencia, As mesmas emoções senti outr′ora; Nos ternos annos teus então zombavas Do que nem mesmo decifrar podias. Quantas vezes meu coração ás claras Te descobri, querida; e quantas vezes O meu desassocego não provando, Rias dos sentimentos, que em minh′alma Entranhados estavam, sem que a causa D′elles jámais me fosse conhecida?

Agora os exp′rimentas, crês agora O que falso julgaras, verdadeiro!... A Natureza em ti o germen lança, Que a ajudal-a te incita: Amor te inflamma, Porque sensivel és; e bem que hesites Sobre o objecto, que deve contentar-te, Ella t′o mostrará em tempo breve. Não te assustem do seu dominio as forças, Porque do jugo seu o pezo é leve. Não mais soffres férvidos desejos, Que o coração te ancêam, e bem podem A languidez eterna victimar-te, Se de amor o remedio os não sacia.

Attenta sobre mil louçãos mancebos, Cheios de encantos: olha-os indulgente, E d′entre elles escolhe um, cujo peito Tão docil como o teu seja formado. Olinda, ama; conhece que delicias Amor encerra, amor, alma de tudo; Amor, que tudo alenta, e que só causa Os gostos de uma vida abreviada. Se contra amor dictames escutaste, Que seus effeitos pintam horrorosos. Não dês credito a maximas fingidas, Que a lingua exprime, e o coração reprova: Que mal provém aos homens, de que unidos Dous amantes se jurem fé, constancia? Que um ao outro se entreguem, e obedeçam Da Natureza ás impressões sagradas? Rouba a virtude acaso a paixão doce

Que beijos mil só farta, e que só pôde Nos braços de um amante saciar-se?... Não, amor a virtude fortifica: Mais a piedade sobre as desventuras Que os outros soffrem, mais a humanidade Em nós se augmenta, quando mais amamos. Se desde o berço em nós força indizivel Sentimentos de amor vai radicando; Se, mal balbuciamos, quanto vêmos A fallarmos de amor nos estimula; Se a edade vai crescendo, e a natureza Nossas feições altera, assignalando Com marcas bem sensiveis, que chegamos Ao prazo, em que é lei sua amar por força, Ou desnegar então nossa existencia: Se tudo a amar convida, e nos impelle, Quem ousa amor chamar crime execrando?....

Ah! deixa, Olinda, deixa que alardêem Virtude austera hypocritas infames: Sabe que, em quanto amor horrivel pintam, Em quanto aos olhos teus assim o afeiam, De uma amante venal nos torpes braços Vão esconder transportes, que os devoram, E, por castigo seu, sómente gosam Emprestadas caricias, vis affagos. Mas quando assim os homens dissimulam, Para dissimulares te dão direito: Finge, como elles; ama e lh′o disfarça; Que é mais um gosto amar ás escondidas. Affecta, embora, affecta sisudeza

Já que affectar te obrigam, e em segredo De instantes enfadonhos te indemnisa; Zomba dos seus ardis, e estratagemas: Dize, entre os braços de um amante charo, Que mais credulos são, do que te julgam, Se crêem nos laços seus aprisionar-te. Se os deleites de amor são só delictos Quando sabidos são, com véo mui denso A perspicazes olhos os encobre: Vinga-te d′esses, que abafar procuram As doces emoções, que n′alma sentes.

São estes os conselhos de uma amiga Que os bens te anhela, que ella saborêa, Sabe, por fim, que quanto mais retardas Tão ditosos momentos, sem gozal-os; Quanto mais tempo perdes ociosa Sem ás vozes de amor ser resignada, Tanto mais tempo tens de lastimar-te. Por não têl-o em amar aproveitado.