Portuguese poem
Iv
by Manuel Maria Barbosa du Bocage
Crê pois, meu doce bem, meu doce encanto, Que te anceam phantasticos terrores, Prégados pelo ardil, pelo interesse. Só de infestos mortaes na voz, na astucia A bem da tyrannia está o inferno. Esse, que pintam barathro de angustias, Seria o galardão, seria o premio Das suas vexações, dos seus embustes, E não pena de amor, se inferno houvesse. Escuta o coração, Marilia bella, Escuta o coração, que te não mente: Mil vezes te dirá: «Se a rigorosa Carrancuda oppressão de um pae severo, Te não deixa chegar ao charo amante Pelo perpetuo nó, que chamam sacro, Que o bonzo enganador teceu na idéa Para tambem no amor dar leis ao mundo; Se obter não podes a união solemne, Que hallucina os mortaes, porque te esquivas Da natural prisão, do terno laço Que com lagrimas, e ais te estou pedindo? Reclama o teu poder, os teus direitos Da justiça despotica extorquidos: Não chega aos corações o jus paterno, Se a chamma da ternura os affoguêa: De amor ha precisão, ha liberdade; Eia pois, do temor saccode o jugo, Acanhada donzella; e do teu pejo Déstra illudindo as vigilantes guardas, Pelas sombras da noute, a amor propicias, Demanda os braços do ancioso Elmano, Ao risonho prazer franquêa os lares. Consista o laço na união das almas; Do ditoso hymenêo as venerandas Caladas trevas testemunhas sejam; Seja ministro o Amor, e a terra templo Pois que o templo do Eterno é toda a terra. Entrega-te depois aos teus transportes, Os oppressos desejos desafoga. Mata o pejo importuno; incita, incita O que, só de prazer merece o nome. Verás como, envolvendo-se as vontades, Gostos eguaes se dão, e se recebem: Do jubilo hade a força amortecer-te, Do jubilo hade a força aviventar-te. Sentirás suspirar, morrer o amante, Com os seus confundir os teus suspiros, Has de morrer, e reviver com elle. De tão alta ventura, ah! não te prives, Ah! não prives, insana, a quem te adora.» Eis o que has de escutar, oh doce amada, Se á voz do coração não fores surda. De tuas perfeições enfeitiçado Ás preces, que te envia, eu uno as minhas. Ah! Faze-me ditoso, e sê ditosa. Amar é um dever, além de um gosto, Uma necessidade, não um crime, Qual a impostura horrisona apregôa. Céos não existem, não existe inferno, O premio da virtude é a virtude, É castigo do vicio o proprio vicio.
FRAGMENTO DE ALCEU, POETA GREGO:
TRADUZIDO DA IMITAÇÃO FRANCEZA DE Mr. PARNY.