Portuguese poem
Alcool
by Mário de Sá-Carneiro (1890–1916)
Guilhotinas, pelouros e castelos Resvalam longemente em procissão; Volteiam-me crepusclos amarelos, Mordidos, doentios de roxidão.
Batem asas d'aureola aos meus ouvidos, Grifam-me sons de côr e de perfumes, Ferem-me os olhos turbilhões de gumes, Desce-me a alma, sangram-me os sentidos.
Respiro-me no ar que ao longe vem, Da luz que me ilumina participo; Quero reunir-me, e todo me dissipo-- Luto, estrebucho... Em vão! Silvo pra àlem...
Corro em volta de mim sem me encontrar... Tudo oscila e se abate como espuma... Um disco de ouro surge a voltear... Fecho os meus olhos com pavor da bruma...
Que droga foi a que me inoculei? Ópio d'inferno em vez de paraíso?... Que sortilegio a mim proprio lancei? Como é que em dôr genial eu me eteriso?
Nem ópio nem morfina. O que me ardeu, Foi alcool mais raro e penetrante: É só de mim que eu ando delirante-- Manhã tão forte que me anoiteceu.
Paris 1913--maio 4.
V--Vontade de dormir