Versos Portuguese Mário de Sá-Carneiro Alem-Tedio

Portuguese poem

Alem-Tedio

by (1890–1916)

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Nada me expira já, nada me vive-- Nem a tristeza nem as horas belas. De as não ter e de nunca vir a tê-las, Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, emfim d'alma esquecida, Dormir em paz num leito d'hospital... Cansei dentro de mim, cansei a vida De tanto a divagar em luz irreal.

Outróra imaginei escalar os ceus Á força de ambição e nostalgia, E doente-de-Novo, fui-me Deus No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei á dôr, Pois tudo me ruíu... Tudo era igual: A quimera, cingida, era real, A propria maravilha tinha côr!

Ecoando-me em silencio, a noite escura Baixou-me assim na queda sem remedio; Eu proprio me traguei na profundura, Me sequei todo, endureci de tedio.

E só me resta hoje uma alegria: É que, de tão iguais e tão vazios, Os instantes me esvoam dia a dia Cada vez mais velozes, mais esguios...

Paris 1913--maio 15.

XI--Rodopio