Versos Portuguese Olavo Bilac Estâncias

Portuguese poem

Estâncias

by (1865–1918)

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Ah! finda o inverno! adeus, noites, breve esquecidas, Junto ao fogo, com as mãos estreitamente unidas! Abracemo-nos muito! adeus! um beijo ainda! Prediz-me o coração que é o nosso amor que finda, Há de em breve sorrir a primavera. Em breve, Branca, aos beijos do sol, há de fundir-se a neve. E. na festa nupcial das almas e das flores, Quando tudo acordar para os novos amores, Meu amor! haverá dois lugares vazios. Tu tão longe de mim! e ambos, mudos e frios, Procurando esquecer os beijos que trocamos, E maldizendo o tempo em que nos adoramos...

Mas, às vezes, sozinha, hás de tremer, o vulto De um fantasma entrevendo, em tua alcova oculto. E pelo corpo todo, a ofegar de desejo, Pálida, sentirás a carícia de um beijo. Sentirás o calor da minha boca ansiosa, Na água que te banhar a carne cor-de-rosa, No linho do lençol que te roçar o peito. E hás de crer que sou eu que procuro o teu leito, E hás de crer que sou eu que procuro a tua alma! E abrirás a janela... E, pela noite calma, Ouvirás minha voz no barulho dos ramos, E bendirás o tempo em que nos adoramos...

E eu, errante, através das paixões, hei de, um dia, Volver o olhar atrás, para a estrada sombria. Talvez uma saudade, um dia, inesperada, Me punja o coração, como uma punhalada. E agitarei no vácuo as mãos, e um beijo ardente Há de subir-me à boca: e o beijo e as mãos somente Hão de o vácuo encontrar, sem te encontrar, querida! E, como tu, também me acharei só na vida, Só! sem o teu amor e a tua formosura: E chorarei então a minha desventura, Ouvindo a tua voz no barulho dos ramos, E bendizendo o tempo em que nos adoramos...

Renascei, revivei, árvores sussurrantes! Todas as asas vão partir, loucas e errantes, A ruflar, a ruflar... O amor é um passarinho: Deixemo-lo partir: - desertemos o ninho... A primavera vem. Vai-se o inverno. Que importa Que a primavera encontre esta ventura morta? Que importa que o esplendor do universal noivado Venha este noivo achar da noiva separado? Esqueçamos o amor que julgamos eterno... - Dia que iluminaste os meus dias de inverno! Esqueçamos o ardor dos beijos que trocamos, Maldigamos o tempo em que nos adoramos...