Portuguese poem
Feito no Escuro
by Olavo Bilac (1865–1918)
Ele era branco, e ela branca, Ambos claros como a luz... Casaram. Baile de arranca, E pagodeira de truz...
O mais formoso dos ninhos Era a casa, à beira-mar, Onde, como dois pombinhos, Foram os dois arrulhar.
Só eles... e um cozinheiro, Que era o crioulo Manuel, Crioulo lesto e ligeiro, Obediente... e fiel.
Ali, Amor assentava Os seus doces arraiais, E o mar, gemendo, invejava Aqueles beijos... e o mais.
Nove meses decorridos, Uma notícia correu: Escutaram-se os vagidos... E o morgadinho nasceu!
Que horror! que espanto! o menino, Filho daquela afeição, Era belo e pequenino, Mas... preto como carvão!...
O marido, ardendo em chama, Fígado cheio de fel, Quer, ali mesmo na cama, Estrangular a infiel.
Ela, porém, que o conhece, Pergunta: — "Você que tem? "Você maluco parece... "Reflita um pouco, meu bem!
"Bem lhe eu dizia, homem duro! "Porém, você a teimar... "Olhe! o que é feito no escuro, "Sempre há-de de escuro ficar!
"Pois... o pobre pequenino... "Feito de noite... bem se vê... Cada qual tem seu destino.... "O culpado foi você..."
Tudo acaba em alegria... Mas o Manuel, no fogão, Malicioso sorria, E temperava o feijão.