Portuguese poem
Noturno
by Olavo Bilac (1865–1918)
Já toda a terra adormece. Sai um soluço da flor. Rompe de tudo um rumor, Leve como o de uma prece.
A tarde cai. Misterioso, Geme entre os ramos e o vento, E há por todo o firmamento Um anseio doloroso.
Áureo turíbulo imenso, O ocaso em púrpuras arde, E para a oração da tarde Desfaz-se em rolos de incenso.
Moribundos e suaves, O vento na asa conduz O último raio da luz E o último canto das aves.
E Deus, na altura infinita, Abre a mão profunda e calma, Em cuja profunda palma Todo o Universo palpita.
Mas um barulho se eleva... E, no páramo celeste, A horda dos astros investe Contra a muralha da treva.
As estrelas, salmodiando O Peã sacro, a voar, Enchem de cânticos o ar... E vão passando... passando...
Agora, maior tristeza, Silêncio agora mais fundo; Dorme, num sono profundo, Sem sonhos, a natureza.
A flor-da-noite abre o cálix... E, soltos, os pirilampos Cobrem a face dos campos, Enchem o seio dos vales:
Trêfegos e alvoroçados, Saltam, fantásticos Djins, De entre as moitas de jasmins, De entre os rosais perfumados.
Um deles pela janela Entra do teu aposento, E pára, plácido e atento Vendo-te, pálida e bela.
Chega ao teu cabelo fino, Mete-se nele: e fulgura, E arde nessa noite escura, Como um astro pequenino.
E fica. Os outros lá fora Deliram. Dormes... Feliz, Não ouves o que ele diz, Não ouves como ele chora...
Diz ele: "O poeta encerra Uma noite, em si, mais triste Que essa que, quando dormiste, Velava a face da terra...
Os outros saem do meio Das moitas cheias de flores: Mas eu saí de entre as dores Que ele tem dentro do seio.
Os outros a toda parte Levam o vivo clarão, E eu vim do seu coração Só para ver-te e beijar-te.
Mandou-me sua alma louca, Que a dor da ausência consome, Saber se em sonho o seu nome Brilha agora em tua boca!
Mandou-me ficar suspenso Sobre o teu peito deserto, Por contemplar de mais perto Todo esse deserto imenso!"
Isso diz o pirilampo... Anda lá fora um rumor De asas rufladas... A flor Desperta, desperta o campo...
Todos os outros, prevendo Que vinha o dia, partiram, Todos os outros fugiram... Só ele fica gemendo.
Fica, ansioso e sozinho, Sobre o teu sono pairando... E apenas, a luz fechando, Volve de novo ao seu ninho,
Quando vê, inda não farto De te ver e de te amar, Que o sol descerras do olhar, E o dia nasce em teu quarto...