Portuguese poem
Xvii
by Raimundo António de Bulhão Pato (1828–1912)
As orações extremas acabaram; O filho ao pae traidor, o audaz amante, Tudo emfim confessou. Rapidas tocam As horas no seu ultimo momento. As ondadas madeichas de cabello Já cairam no chão. O nobre manto Bordado pelas mãos de Parisina, Não deve acompanhal-o á sepultura. Tentam vendar-lhe o rosto, não consente Esta final affronta. O seu orgulho, Comprimido no mais intimo d'alma Pela expressão de fria indifferença, Acorda nesse instante, repellindo A mão do algoz que vem cobrir-lhe os olhos.
«O meu sangue, culpado, é teu, pertence-te, Preso, algemado estou; co'a vista livre, Quero ao menos morrer: «Fere» e dizendo No logar do supplicio inclina a fronte. Ao proferir esta palavra: «Fere» Brilha o ferro no ar; silvando o golpe Cai rapido e fatal. Rola a cabeça, O corpo palpitante e transtornado, Pula envolto no pó, que bebe o sangue Saído em borbotões pelas arterias!
Inda instantes os labios estremecem, Nos olhos inda fulge a luz da vida; Tudo emfim acabou! Morto sem pompas, Como deve morrer o homem culpado Que se arrepende no momento estremo, Elle o seu coração oppresso e triste A Deus sómente consagrou ness'hora.
A imagem de seu pae, da propria amante O que eram á sua alma atribulada? Um sentimento das paixões terrestres Não viera turbar naquelle instante A pura contricção do seu espirito, A não ser quando expondo a fronte nua, Ao cutello do algoz quiz ver a morte. Era o unico adeus que proferira, Ás testemunhas do cruel supplicio.