Portuguese poem
Loas de Natal e Reis
by Sílvio Romero (1851–1914)
I Ô! de casa, nobre gente, Escutai e ouvireis, Lá das bandas do Oriente São chegados os três Reis
Gaspar, Melchior, Baltazar Vieram lá do Oriente Adorar o Deus Menino, A Jesus onipotente.
O primeiro trouxe ouro, Para o seu trono dourar; O segundo trouxe incenso, Para o Menino incensar; O terceiro trouxe mirra, Por saber qu'era imortal. . .
Abri a porta, Se quereis abrir, Que somos de longe, Queremos nos ir.
II
Acordai, se estais dormindo, Deste sono em que estais, Pois em noite tão ditosa É bom que vós não durmais.
Esta casa é mui bem feita, Por dentro, por fora não: Por dentro cravos e rosas, Por fora manjericão.
Oh! senhor dono da casa, Ramo de alecrim maior, A sua sombra nos cobre, Quer chova, quer faça sol.
Oh! senhor dono da casa, Foi homem que Deus pintou, Meta a mão nas algibeiras, Pague já quem o louvou.
Ora dêem, Se têm o que dar, Que somos de longe, Queremos andar!
III
Bendito, louvado seja, O Menino Deus nascido, Que no ventre de Maria 'Steve por nós escondido.
Há três dias que eu ando Procurando sem achar, Mas fui dar com ele em Roma Vestidinho num altar.
Abram a porta, Se têm de abrir, Que somos de longe, Queremos nos ir.
IV
Do letargo em que caístes, Despertai, nobres senhores; Vinde ouvir notícias belas, Que vos trazem os pastores.
Senhora dona de casa, Bote azeite na candeia, Que eu não tenho a confiança De mandar na casa alheia.
Aqui estou na vossa porta Feito um feixinho de lenha, À espera da resposta Que de vossa boca venha.
Dois de cá, Dois de lá; Mariquinhas no meio Não pode sambá.
Vinde abrir a vossa porta, Se quereis ouvir cantar; Acordai, se estais dormindo, Vos viemos festejar.
Sabei que é nascido um Deus, Soberano e Onipotente, Adorado das nações E das mais bravia gente.
Os três Reis, de longes terras, Vieram ver o Messias, Desejado há tanto tempo De todas as profecias.
Tenho sede, Não quero pedi Pois tenho vergonha Da gente daqui.
VI
Os três Reis, com grande gosto, Seguidos de muita gente, Se humilharam abatidos A um Deus Onipotente.
Lhe trazem suas ofertas Com um amor filial, Aplaudem todos contentes O seu tão lindo Natal.
Incenso, mirra e ouro É o que vêm ofertar, Despem ceptros e coroas Com prazer mui singular.
Mortais, não fieis na sorte, Vinde ao Menino aplaudir; O seu virtuoso exemplo Deveis contentes seguir.
Se há de vir, Que venha já: Garrafas de vinho, Doce de araçá.
VII
A grandeza, a opulência, Detestai-as sem receio; Vede corno o Deus menino A dar-vos exemplo veio.
Ó senhor dono da casa, Com ampla satisfação, Abra já a sua porta Pois tem grande coração.
Hoje é dia de festejo, E de um prazer sem segundo, Pois é nascido o Menino Salvador de todo o mundo.
O senhor dono da casa, Deve já aqui estar, Pois sabemos quanto gosta Com prazer também brincar.
Há tanto tempo Que nós já chegamos, Que é de as galinhas Que nós já ganhamos?
VIII
Somos gentes de bom gosto, Gostamos de conviver, Também queremos que todos Mostrem contento e prazer.
Na Lapinha de Belém E' nascido o Deus Menino, Entre as turbas dos pastores Sendo um Senhor tão Divino.
Abra a porta, Também a janela, Que eu quero gozar A cor de canela.
IX
Abri já a vossa porta, Pois temos muito que andar; Antes que o dia amanheça Queremos a Belém chegar.
Queremos hoje brincar Com contento e com prazer, Pois para nossa ventura Veio o Menino nascer.
Na Lapinha de Belém, Adorado dos pastores, Nasceu um Deus Menino, Sendo Senhor dos senhores.
Festejemos ao Menino, Nascidinho em Belém, Pois é a vossa ventura É o nosso Sumo Bem.
Tenho vontade De uma cousa pedi; Mas tenho vergonha Das gentes daqui.
X
Somos gentes muito boas, Sabemos bem conviver; Bebemos bem aguardente Com alegria e prazer.
O nosso bom Deus amante Quis o mundo resgatar, Nascendo em um presepe Para todos nos salvar.
Abra a porta Bem devagarinho, Que eu quero dizer: Adeus, meu benzinho.
XI
Senhora D. Maria, Espelho do relação, Quem fala nessa senhora Dobra o joelho no chão.
O senhor dono da casa É uma folha de papel, Inda espero o ver na praça Com bastão de coronel.
Os pequenos desta casa, Não se dêem por agravados, Picaram por derradeiros Por serem mais estimados.
Senhora dona da casa, Olhos de pedra redonda, Daquela pedra mais fina Em que o mar combate a onda.
O telhado desta casa É telhado de virtude; Eu passei aqui doente, Hoje de boa saúde.
Se eu soubesse Que havia função, Trazia mulatas Do meu coração.
XII
Esta noite tão ditosa É bom que vós não durmais, Porque tão alta ventura Não é justo que percais.
Vinde ouvir simples cantatas De grosseiros camponeses, Das aldeias conduzindo Cordeiros e mansas reses.
As serranas enfeitadas Em prazeres vão saltando; Os mancebos, os velhinhos, Todos, todos vão chegando.
Vossas ofertas, senhores, Trazei, que as conduziremos, E com toda a companhia Iguais as repartiremos.
Somos meninas Da casa da mestra, Viemos fugidas Promode a tarefa.
XIII
Frangos, galinhas, perus, Doce, queijo e requeijão, Tudo nós aceitaremos Vindo de bom coração.
Nada de flores queremos, Porque cheiro sem sabor, Suavisa um só sentido, Não refrigera o calor.
Melancias, ananases, Belas mangas, mangabinhas, Até servem nesta noite Uns pombinhos e pombinhas.
Ora dêem, Se têm de dar! Que somos de longe Queremos andar.
XIV
Venham ovos, venham uvas, Limões doces e cajus; E então sim, seremos gratos Para sempre, Amem Jesus.
Para que tão lauta ceia Mal não nos possa fazer, Em cima da fruta e doce Mandai-nos dar que beber.
Se quiser Que eu seja daí, Você dá pipocas, Eu dou 1nundubi.
XV
Vinho do Porto e do Duque, Bordeaux, moscatel, champanha, E tudo que é licor fino Fabricado em terra estranha.
Esta vai por despedida Por cima destes telhados, As pessoas que nos ouvem Tenham os dentes quebrados.
A dona da casa E' boa de dá, Garrafas de vinho, Doce de araçá.