Versos Portuguese Sílvio Romero O ABC da Moça Queimada

Portuguese poem

O ABC da Moça Queimada

by (1851–1914)

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A trinta do mês de outubro Do ano de trinta e um, Ardi em chamas de fogo Sem haver remédio algum.

Ai! de mim triste coitada, Que truce tão cruel sina . De passar pela desgraça Neste mundo tão menina!

Bem conheço de certeza Que foi por Deus esta morte, Assim quis o criador, Permitiu a minha sorte.

Cuando no mundo nasci Foi para morrer queimada; De Deus a sina no mundo Não pode ser revogada.

Deus como de piedade Tenha de mim compaixão: Foi tal a minha desgraça . Que morro sem confissão.

Eu conheço de certeza Que só por Deus poderia Eu acabar desta sorte, Morrer com tanta agonia.

Fazendo eu umas papas Para um menino comer, Oh! que caso tão cruel! A mim veio acontecer.

Gritei por todos de casa No estado em que me pus, Pedindo que me acudissem Pelas chagas de Jesus.

Hoje por me ver assim Desenganada da vida Já desejo que a minha alma De Deus seja recebida.

Já me dispus a morrer, Para mim a morte é nada; Tendo a glória, me não pesa De ter morrido queimada.

Lágrimas por mim não botem Que remédio me não dão, Antes me recomendem À virgem da Conceição.

Morrendo estou satisfeita, Ninguém de mim tenha dó; Tendo eu a salvação Lá no céu estou melhor.

Não tenho mais que pedir, Que já mais falar não posso; Quem nesse ABC a pegar Reze-me um Padre-Nosso.

Oh bom Deus de piedade, Jesus Cristo Redentor, Tende compaixão de mim Por vosso divino amor!

Pelos meus grandes pecados No mundo fui desgraçada, Mas pelo amor de Maria Serei nos céus perdoada.

Que dores! que agonias Por me ver nesta figura! Naquela matriz do Icó Foi a minha sepultura.

Rolando na minha cama Com ânsias e agonias Sem poder ter um alívio No espaço de oito dias.

Soberano rei da glória, Filho da Virgem Maria. No meu último suspiro Queirais ser a minha guia.

Tenho a certeza, Senhor Que me não hei de perder; Vos peço que não deixeis A minha alma padecer.

Vou dar fim ao A B C Que não posso mais falar; Me ajudem a morrer Que me quero retirar.

Xorando ficarão todos, Eu me vou bem consolada Na esperança que a minha alma Na glória terá entrada.

Zangada já estou do mundo, Eu não quero mais viver, No artigo em que me acho Só com Deus me quero ver.

O til é letra do fim; Findo em pedir também A Deus que me dê a glória. Para todo o sempre. Amém.