Versos Portuguese Sílvio Romero O ABC do Araujo

Portuguese poem

O ABC do Araujo

by (1851–1914)

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Ah! mundo falso, enganoso, Em ti não há que fiar; Ao que for mais exaltado Maior queda fazes dar.

Bem se viu, melhor se vê; Quem vier melhor verá; As voltas que o mundo deu E as que tem para dar.

Cuide cada um em si, Não queira ao alto voar, Que o fogo da soberba As asas lhe há de queimar.

Do que fui e do que sou Bem me desejo esquecer, Ao lembrar-me do que fui E do que virei a ser.

Embarquei com vento à popa Para no mar navegar; Sem levar agulha e prumo Pelos baixos vim a dar.

Fui solteiro e sou casado. Vivi com muita alegria, Por se me trocar a sorte 'Stou posto sem serventia.

Gastei a minha fazenda Na fúria da mocidade Servindo a bens comuns E a uma Majestade.

Homem grande..... De um grande governar Se não tiver direção Sem respeito há de acabar.

Lembrando-me do que fui, Muito diferente estou; Fui alegre, hoje sou triste; A sorte se me mudou.

Morto já me considero, Ter vida mais não queria; Só se eu tivera vista Algum tempo ou algum dia.

Não são lembrados os males Na primavera dos anos: Só se me lembram delitos, Não se me esquecem os danos.

Quem se viu como eu me vi Tão respeitado e querido! . Hoje de poucos lembrado, E de muitos esquecido!

Respeito, honra, justiça No dinheiro é que se encerra; Quem tem isto já tem tudo, Porém tudo isso é terra.

Suspiros que vêm de longe Só servem de maltratar; Olhos que de ver não servem Que sirvam para chorar.

Tu me viste, e tu me vês No estado em que estou; Isto te sirva de exemplo, Que quem eu fui já não sou.

Vanglórias e passatempos, Tudo neste mundo passa; Descem uns e sobem outros Conforme a sua desgraça.

Zombe pois de mim o mundo, Que eu dele não quis zombar, Adquirindo paixões Para com elas cegar.

O til não fique de fora, Entre já sem dilação; Venham ver o Araujo Que já teve, e hoje não.