Portuguese poem
O Bernal Francês
by Sílvio Romero (1851–1914)
“Quem bate na minha porta, Quem bate, quem está aí? —É Dom Bernaldo Francês, A sua porta mande abrir.
No descer da minha cama Me caiu o meu chapim ; No abrir da minha porta Apagou-se o meu candil. Eu levei-lhe pelas mãos, Levei-o no meu jardim; Me pus a lavar a ele Com água de alecrim; E eu como mais formosa Na água de Alexandria. Eu lhe truxe pelas mãos, Levei-o na minha cama. Meia noite estava dando. Era Dom Bernaldo Francês; Nem sonava, nem movia, Nem se virava pra mim. "O que tendes, D. Bernaldo, O que tendes, que maginas?
Si temes de meus irmãos, Eles estão longe de ti; Si temes de minha mãe, Ela não faz mal a ti; Si temes de meu marido, Ele está na guerra civil.
—Não temo de teus irmãos, Qu'eles meus cunhados são; Não temo de tua mãe, Qu'ela minha sogra é; Não temo do teu marido, Qu'ele está a par contigo. "Matai-me, marido, matai-me; Qu'eu a morte mereci; Si tu eras meu marido Não me davas a conhecer.
—Amanhã de pra minhã Eu te darei que vestir; Te darei saia de ganga, Sapato de berbotim, Trago-te punhal de ouro Para te tirar a vida...
O túmulo que a levava Era de ouro e marfim; As tochas que acompanhavam Eram cento e onze mil, Não falando de outras tantas Que ficou atrás pra vir. "Aonde vai, cavaleiro, Tão apressado no andar?
—Eu vou ver a minha dama Que já há dias não a vejo. "Volta, volta, cavaleiro, Que a tua dama já é morta, É bem morta que eu bem vi, Si não quereis acreditar Vai na capela de São Gil. "Abre-te, terra sagrada, Quero me lançar em ti. "Para, para, Dom Bernaldo, Por mode ti já morri."
—Mas eu quero ser frade Da capela de São Gil; As missas que eu disser Todas serão para ti. "Não quero missas, Bernaldo, Que são fogo para mim: Nas filhas que vós tiver Botai nome como a mim; Nos filhos que vós tiver Botai nome como a ti.