Versos Portuguese Sílvio Romero Manoel de Ó Bernardo

Portuguese poem

Manoel de Ó Bernardo

by (1851–1914)

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Indo eu para a novena Na vila da Floresta, O major Antônio Lucas Convidou-me para a festa. “Seu major António Lucas, Como é que eu hei de ir? Quem anda por terra alheia Não tem roupa pra vestir. — Dou-te cavalo de sela, E roupa pra te vestir, Dinheiro para comeres, Escravo pra te servir. —Estava jantando em casa Um dia bem descansado, Quando dei fé que chegava Cavalo fino selado: "Seu major manda dizer Que é já tempo do chamado!" Quando eu saí de casa Logo peguei a encontrar, Era homens e mulheres... — "Vai cantar com Rio-Preto?

É melhor que não vá la... Porque se importa esta gente Da desgraça que cometo? Hão de ter logo notícia Que fim levou Rio-Preto. Quando ganhei lá por dentro Naquele campo mais largo, O povo que eu encontrava De mim ficava pasmado: "Queira Deus este não seja Manoel de O' Bernardo!" Distante bem quinze léguas De mim tiveram notícias; Ao major Antônio Lucas Foram pedir as alviças. Era gente pra me ver Como a doutor na justiça, E o povo de Rio-Preto Era urubu na carniça. Seu major Antônio Lucas, Quando ele me enxergou, Botou oclo de arcance: "Lá vem o meu cantador!" Quando fui chegando em casa, Na entrada do terreiro, Antes de lhe dizer adeus, Deu-me um abraço primeiro: —Ora vem cá, ó Bernardo, Filho de Deus verdadeiro. "Seu major Antônio Lucas, Me mande dar de cear; Quero ver se Rio-Preto Inda é forte no lugar." Ele puxou pelo braço E mandou botar a ceia; Eu fiquei agradecido, Pois estava em terra alheia. Ao levantar a toalha, Pus as mãos para rezar, Quando chegou um aviso Que já vinham me chamar. Eu saí logo à frescata, Rio-Preto me falou. Não te afastes, Rio-Preto, A resposta já te dou. "— Manoel de O'Bernardo, Olha que já estou previsto, Segura o botão da calça, Aqui tens homem na vista. "Rio-Preto, tu vigia, Olha que bom não sou, não, Aperta o botão da calça, Segura o cós do calção. "— A onça não faz carniça Que não lhe coma a cabeça, Nunca vi a cantador Que por fora não conheça. "A pois manda fazer uma Com seis braças de fundura; Como é bicho de represa, Tanto lava como fura. Quando vim da minha terra Truce ferro cavador Para tapar Rio-Preto, Deixa-lo sem sangrador. "— Se tapares o meu rio, Não tapas o meu riacho, Que eu represo nove léguas, Botando a parede abaixo. "Rio-Preto, se tu vires Eu passear em gangorras, Se tu vires, não te assustes, Se te assustares, não corras; Se correres, não te assombres; Se te assombrares, não morras. Rio-Preto, não me vexo Para subir a ladeira, Subo de cocra e de banda, Subo de toda a maneira; Até mostro preferência Em subi-la na carreira. "— Manoel de O' Bernardo, Olha, já me vou daqui; Já estou certificado Que tens o major por ti. "O fama do Rio-Preto, Um cabra tão cantador, Descobriu por boca própria Que e'ra atraiçoador. "— Manoel de O' Bernardo, Reza o ato de contrição, Que viemos te matar, Não ficas mais vivo, não. A madrinha da noiva Foi quem te mandou matar, Para de outra donzela Te não ires mais gabar. "A madrinha do noivado, Por ser moça de ação, Por um elogio tirando deu-me a mim um patacão; Deu quatro para o meu bolso, E quatro pra minha mão. “—Nós viemos te matar, Ganhando trinta mil réis, Mas por causa do despacho Cada um te damos dez.