Portuguese poem
VIII (Marília, de que te queixas)
by Tomás Antônio Gonzaga (1744–1810)
Marília, de que te queixas? De que te roubou Dirceu O sincero coração? Não te deu também o seu? E tu, Marília, primeiro Não lhe lançaste o grilhão? Todos amam: só Marília Desta Lei da Natureza Queria ter isenção?
Em torno das castas pombas, Não rulam ternos pombinhos? E rulam, Marília, em vão? Não se afagam c'os biquinhos? E a prova de mais ternura Não os arrasta a paixão? Todos amam: só Marília Desta Lei da Natureza Queria ter isenção?
Já viste, minha Marília, Avezinhas que não façam Os seus ninhos no verão? Aquelas, com que se enlaçam, Não vão cantar-lhes defronte Do mole pouso, em que estão? Todos amam: só Marília Desta Lei da Natureza Queria ter isenção?
Se os peixes, Marília, geram Nos bravos mares e rios, Tudo efeitos de Amor são. Amam os brutos impios, A serpente venenosa, A onça, o tigre, o leão. Todos amam: só Marília Desta Lei da Natureza Queria ter isenção?
As grandes Deusas do Céu Sentem a seta tirana Da amorosa inclinação. Diana, com ser Diana, Não se abrasa, não suspira Pelo amor de Endimião? Todos amam: só Marília Desta Lei da Natureza Queria ter isenção?
Desiste, Marília bela, De uma queixa sustentada Só na altiva opinião. Esta chama é inspirada Pelo Céu; pois nela assenta A nossa conservação. Todos amam: só Marília Desta Lei da Natureza Não deve ter isenção.