Portuguese poem
I (Dizer mal das mulheres e costume)
by Vicente de Carvalho (1866–1924)
Dizer mal das mulheres e costume De todo o amante que não foi feliz: Um coitado mordido de ciúme Tudo maldiz, e se maldiz... Pois confesso que nisso se resume O que fui, o que fiz.
Julguei mal a que adoro, e que me adora E as mulheres, por pérfidas e vis, A todas condenei de foz em fora... Fui infeliz... Sou infeliz Pois com remorso reconheço agora O que fui, o que fiz.
Quem se acredita amado se conforma Com o poder dos encantos feminis: Tudo explica e desculpa, de tal forma Que... Tu sorris? Por quê? Sorris De uma vontade que tomei por norma No que fui, no que fiz.
Porque abrolha em espinhos a roseira Quem negará que as rosas são gentis? Do teu encanto de mulher faceira Ninguém dirá - e ninguém diz Que é coisa sem valor, que se não queira... E assim fui no que fiz.
És tão linda! Eu adoro-te. És tão boa! Finges tão bem o amor, que o que eu não quis Quero agora. Que bem pus fora à toa! Fui imbecil...Aos imbecis É caridade perdoar... Perdoa No que fui - o que fiz.
Seja fingido embora o teu agrado, Agrada-me! Os teus modos infantis Me dão a idéia de que sou amado. Nasceste atriz...És boa atriz... Choras?... Isso me deixa consolado Do que fui, do que fiz.