Versos Portuguese Vicente de Carvalho Horas de amor

Portuguese poem

Horas de amor

by (1866–1924)

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Só vivo as horas que passo Junto de ti, meu amor, Tua cintura em meu braço, Meu beijo em tua bocca em flor...

Só assim vivo, querida, Pois tudo mais não é vida.

Ventura que mal gotteja, Triste do amor que se esconde, E só acha de onde em onde Um acaso que o proteja;

Só alcanço o teu carinho Nesta sombra de folhagem, Onde, como ave selvagem, Nosso amor tem o seu ninho.

Por entre as moitas vagueio, Caminho, paro, indeciso... Virás ou não? E agoniso Entre a esperança e o receio.

Por toda a floresta, cheia De um rumor vago e perdido, Cuido escutar o ruido Dos teus pésinhos na areia.

Volto-me sobresaltado Só porque uma ave deteve O vôo, e um ramo, de leve, Estremeceu ao meu lado.

E emquanto na sombra curto Essa impaciencia hesitante Por ternuras de um instante, Por beijos dados a furto,

Cheio de inveja reparo Nas borboletas que em bando Passam felizes, amando Na plena luz do sol claro...

Ventura que mal gotteja, Triste do amor que se esconde, E só acha de onde em onde Um acaso que o proteja.

Amor que a sombra encarcera, E foge ao sol e ás estradas... Fossemos nós de mãos dadas Pela vida e a primavera!

De subito, ouço teus passos: D’entre folhagens de arbusto Olhas, tremula de susto, Caes palpitante em meus braços.

E como a cançada abelha Que suga a flor, e adormece, Meu beijo poisa, e se esquece Em tua bocca vermelha...

Logro só de espaço a espaço Algum momento de amor, Tua cintura em meu braço, Meu beijo em tua bocca em flor.

Ai, eu só vivo, querida, Pedaços da minha vida...