Portuguese poem
Folha solta
by Vicente de Carvalho (1866–1924)
Eis o ninho abandonado Dos sonhos do nosso amor... E’ o mesmo o chão onde oscila A mesma sombra tranquila Dos arvoredos em flor.
E’ o mesmo o banco de pedra Onde assentados nós dois Falámos de amor um dia... Lembras-te? Então, que alegria! E que tristeza depois!...
Falámos de amor... E sobre Minh’alma arqueava-se o azul Do teu olhar transparente Como o ceu alvorecente Das nossas manhãs do sul.
Quanta loucura sonhámos! Quanta ilusão multicôr! Quanta rizonha esperança Nessas almas de criança Iluminadas de amor!
Quando eu partia, chorámos... Toda a alma se me desfez. Cada lagrima caída Era uma folha da vida Que eu desfolhava a teus pés.
Então amavamos tanto! Tanto esquecemos apóz! E de mjnh’alma, alto e dôce, Foi-se afastando... e calou-se O ultimo som de tua voz...
Passaram-se os anos — sombras Que iam crescendo em redor Daquele sol afundado Nos abismos do passado: — A estrela do nosso amor.
Hoje volto... E’ tudo o mesmo Que quando amámos aqui: Sombra, passaros, fragrancia, Tudo me fala da infancia, Tudo me fala de ti.
Abril dezenrola em torno Seu esplendor festival; Tudo é jubilo... No emtanto Não mesclas teu doce encanto A este encanto matinal.
Não voltas, pomba emigrante, Ao ninho de onde se ergueu Teu vôo, abrindo caminho Em busca de um outro ninho Sob o azul de um outro ceu...
Encontro o ninho dezerto; Volto, o seio imerso em dor, Em pranto os olhos submersos...
E aqui deixo nestes versos O ultimo sonho de amor.