Portuguese poem
Gélida
by Vicente de Carvalho (1866–1924)
Lembram-me sempre as rejiões polares — Frias e brancas solidões imensas — Quando em meus olhos pouzam teus olhares: Neles vendo o que sentes e o que pensas, Lembram-me sempre as regiões polares...
Lá, sob o escuro ceu que a bruma veste De vaga sombra e de imortal tristeza, Se dezenrola, alcantilado e agreste, O seio nu da triste natureza, Lá, sob o escuro ceu que a bruma veste.
Os esqueletos brancos das montanhas Sob o veu transparente das neblinas Vão dezenhando aparições estranhas... Têm a tristeza vaga das ruinas Os esqueletos brancos das montanhas.
Quebra a funerea solidão que dorme Em torno, apenas e de quando em quando, O fantasma de um urso, horrendo e informe, Os vagarozos passos arrastando Pela funerea solidão que dorme...
Assim pareces tu, palida e fria; Formoza filha de Albion nevoenta! Rosto onde não resplende uma alegria, Alma onde uma ternura não rebenta, Assim pareces tu, palida e fria.
Nunca um raio de amor iluminou-te O arido seio, o coração de pedra; Nenhuma estrela te clareia a noute, Nenhuma roza no teu seio medra, Nunca um raio de amor iluminou-te.
E a tua vida é como esse dezerto Vasto, sombrio, lugubre, gelado: Olha-se e vê-se, lonje como perto, Um grande plaino branco e despovoado... E a tua vida é como esse dezerto.
Mas como os ursos das regiões polares, Vê-se, quebrando essa monotonia, Passar ás vezes pelos teus olhares A sombra de uma colera bravia Como esses ursos das rejiões polares...