Portuguese poem
Fantazias do luar
by Vicente de Carvalho (1866–1924)
I
Entre nuvens esgarçadas No céu pedrento flutua A triste, a pálida lua Das baladas.
Frouxo luar sugestivo Contagia a natureza Como de um ar de tristeza Sem motivo.
Tem vagos tons de miragem, De um desenho sem sentido, Da paisagem.
A apagada fantasia Do colorido - parece De um pintor que padecesse De miopia.
Tudo, tudo quanto existe, Extravaga, e se afigura Tomado de uma loucura Mansa e triste.
O longo perfil do Monte - Como um rio de água verde- Corre ondulado, e se perde No horizonte.
E sobre essa imaginária Turva corrente, projeta A alva igreja a sua seta Solitária.
Assim, de um ermo barranco A garça alonga no rio O seu vulto, muito branco, Muito esguio.
Sonha, imóvel... E acredito Que de súbito desperte Aquele fantasma inerte De granito.
Dorme talvez... Qualquer cousa No seu sono se disfarça De asa encolhida de garça Que repousa.
E eu cuido vê-la a cada hora, Animar-se; e de repente Subir sossegadamente Céu afora...
II
Há um lirismo disperso Nos ares... O próprio vento, Esse bronco, esse praguento, Fala em verso:
Voz forte, bruscas maneiras, Pela boca pondo os bofes, O vento improvisa estrofes Condoreiras.
Beijam-se as frondes, arrulam, Trocam afagos, promessas... E as árvores secas, essas Gesticulam.
Gesticulam, como espectros, No vácuo, tentando abraços Com seus descarnados braços De dez metros.
Algum trovador de esquina Canta a paixão que o devora; E a sua voz geme, chora, Desafina.
Ao longe um eco repete O canto, frase por frase, Em tom abrandado, quase Sem falsete.
Tem o aspecto apalaçado Da pedra cara e maciça O muro, em simples caliça, De um sobrado.
Nem castelã falta a esse Castelo: na luz da lua, Branca, airosa, seminua, Resplandece.
Numa pose pitoresca De romance ou de aquarela, A burguesa que à janela Goza a fresca.
III
O olhar, o ouvido, a alma inteira Vê, ouve, acredita, sente Quanto sonhe, quanto invente, Quanto queira,
Quando, ó lua das baladas, Forjas visões indistintas Com esse aguado das tintas Estragadas.